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OMAR SALOMÃO Por Ramon Mello ![]() MÚSICA E POESIA Filho de uma entidade poética, Omar Salomão não teme a herança do pai – o poeta Wally Salomão – e ainda reverencia seu mestre em sua poesia. A conversa com o poeta de sorriso largo, e palavras precisas, aconteceu no Rio de Janeiro, na Livraria Letras e Expressões, no Leblon, bairro onde mora. O jovem artista multimídia quando criança queria ser astronauta e se tornou poeta. Publicou seu primeiro poema Pedras Portuguesas aos 13 anos, na revista O Carioca. E hoje, aos 23 anos, é um dos apresentadores do programa Quarto Mundo (Multishow) e integrante da banda Vulgo Quinho & Os Caras, onde fala poesia. Omar ainda pretende terminar a faculdade de cinema na PUC–RJ, enquanto escreve outro livro. Seu primeiro livro de poesias – À Deriva (Dantes) - está cercado de prestígio: Marcelo YuKa e Heloisa Buarque de Hollanda assinaram, respectivamente, a orelha e o prefácio da obra. O texto mistura universos distintos - mitos, utopias e ideologias - infectados por palavras trabalhadas pela sua sensibilidade de “poeta-andarilho”.
Click(IN)VERSOS - Omar, não tem como falar de você sem falar do seu pai – o poeta Wally Salomão. No prefácio do seu livro há um canto da capoeira baiana que diz: 'menino quem foi seu mestre? / meu mestre foi Salomão'. Como lida com essa influência do seu pai?
Click(IN)VERSOS - Existe dificuldade em trabalhar em uma área em que seu pai se destacava? Ou isso só te abre portas? OMAR SALOMÃO - É complicado porque são diversas facetas. Meu pai me abriu várias portas, mas num âmbito muito maior do que meramente publicar um livro ou trabalho. Ele me ajudou com as amizades. Conheci diversos amigos por meio do meu pai, como é caso da Heloísa Buarque de Hollanda, Marcelo Yuka, Ericson Pires, Antônio Cícero... Por ouro lado tem esse peso todo das pessoas me verem como filho do Wally Salomão, até por conta da aparência física. Isso é complicado porque é opressivo. As pessoas esperam que eu seja como meu pai, ou que pense da mesma maneira. É um orgulho enorme, mas ao mesmo tempo há essa luta de falar “eu sou outra pessoa”. Às vezes, acho que quanto menos penso na forma em que meu pai agiria, mais eu me pareço com ele.
Click(IN)VERSOS - Seu livro chama-se À Deriva (Dantes Editora). Há alguma relação em estar perdido e não saber se realmente quer seguir a poesia? OMAR SALOMÃO – Engraçado... hoje eu recebi um e-mail da Anna, da Livraria Dantes (no Rio de Janeiro), que diz o seguinte: “A vida só da vida se deriva" (do livro O Gabinete de Curiosidades, de Domenico Vandelli). E acho que é isso. O livro é uma derivação de minha vida. E tem essa idéia de estar à deriva, estar perdido. Mas eu não estou perdido em alto-mar, estou perdido no alto mar - que representam milhões de influências. Se eu quero ser poeta? Não sei. O que é ser poeta? Eu não escrevo porque acho interessantes o método ou a forma, ou porque é bacana escrever poesia. Escrevo por necessidade. Click(IN)VERSOS - Você consegue interagir com diversos meios. Seja escrevendo poesia, falando poesia na banda lítero-musical Vulgo Quinho & Os Caras, sendo um dos apresentadores do programa Quarto Mundo (MultiShow) ou estudando cinema. Qual é o elo de ligação entre tudo isso? OMAR SALOMÃO - A poesia! (RISOS) A minha poesia é a forma de como vejo a vida, é o meu elo de ligação. Talvez seja esse o diferencial, talvez seja isso que aprendi com a poesia. Na poesia se aprende a ter um outro olhar! Na poesia se pesca sutilezas, obviedades e as transforma. Enxerga com outros olhares. E como livro, o suporte físico da poesia, é algo muito limitado, porque não levar isso para outros meios? Meu livro teve uma tiragem de 500 exemplares, já esgotou. Porque não levar isso para música, para o cinema ou televisão? Eu não quero fazer nada inteligível, não! A poesia é sutil, é delicada. E tem alguma novidade ali... Ou não. Click(IN)VERSOS- Por que você escolheu estudar Cinema e não Letras? OMAR SALOMÃO - Eu acho Letras um saco. Eu não acredito que uma pessoa vai escrever bem só lendo muito. É claro que tem que ler. Mas e a vida? O que adianta só ler e ficar naquele redemoinho de informações? Acho que tem que ter um equilíbrio nesse casamento. Por que não Letras? Porque acho que Letras fica nesse âmbito acadêmico, nesse preciosismo. Eu sou muito preconceituoso com a Academia. Eu acho que na Comunicação Social eu pude crescer muito, sobretudo com as pessoas. É um centro que reúne pessoas das mais diversas áreas, inclusive quem está perdido na vida vai estudar comunicação. Click(IN)VERSOS- No programa do evento de poesia Bendita Palavra Maldita (2006) tem uma frase curiosa sua: “Quando criança eu queria ser astronauta. Frustrado, fui escrever poesia.” Fale um pouco sobre isso. OMAR SALOMÃO - Eu não sei... Acho que eu sempre quis tocar as estrelas. E talvez a poesia permita isso. E o cinema também permite isso, tocar as estrelas, sonhar. O cinema me permite sonhar, explorar outros campos. E o jornalismo, que de certa forma é rígido, permite com que eu escreva um texto mais próximo à realidade. Você tem que estar ligado a todo momento. O artista tem que estar em sintonia com o seu mundo. Tem que conhecer e respeitar o passado, mas não estar preso nele. Click(IN)VERSOS- Certa vez seu pai declarou numa entrevista no Jornal do Brasil: “Sonho com um povo mais bem alimentado, letrado, gostando de livro, mas sem estar oprimido pela leitura. Minha meta é transformar o livro numa carta de alforria”. E você, como é a relação com os livros ou com a palavra? OMAR SALOMÃO - Meu pai também dizia que ia colocar um dicionário na cesta-básica. Eu cresci rodeado de livros. Cresci vendo meu pai falando com amigos poetas no telefone, citando Nietzsche, Drummond...Como se estivesse falando de amigos íntimos, eu realmente acreditava que eram amigos vivos. Acho que não tenho nenhuma relação interessante com a palavra, mas eu adoro a palavra, adoro ler, adoro texto, adoro o cheiro do livro... Click(IN)VERSOS - E por que falar poesia numa banda rock/MPB? OMAR SALOMÃO - Falar poesia pra mim sempre foi uma coisa estranha. Não era uma coisa confortável. Fui falar poesia pela primeira vez na exposição Tudo é Brasil (Paço Imperial / RJ), que o curador Lauro Cavalcanti chamou a mim e outros poetas. Mas eu ficava com medo de incomodar as pessoas. E depois falei no aniversário de dez anos da Livraria Dantes, junto com o Michel Mellamed, mas ele não pôde ir... Aí chamei esses meus amigos da PUC pra tocar. Assim a banda começou, improvisando um fundo sonoro para falar poesia. Depois o Quinho musicou um poema e as pessoas gostaram. É legal, um pouco diferente de lidar com a linguagem. Click(IN)VERSOS - Você compõe músicas? OMAR SALOMÃO - Não... (risos) Não, não componho. Tento, mas não consigo. Não é nenhum preconceito com a música não. Até o momento é uma certa inabilidade. Click(IN)VERSOS - Como é seu processo criativo? OMAR SALOMÃO - É intuitivo, mas eu sento e escrevo. Eu tenho sempre aquela caneta no bolso, anoto no celular. Estou sempre trabalhando, 24hs me relacionando com alguma coisa. Acho que essa é a função, estar sempre ligado. Eu tenho uma certa disciplina, senão eu não consigo. Eu mexo muito no poema até achar que ele está bom. Click(IN)VERSOS - No seu livro você fala que sua poesia está “infectada pela rua”. Até a parte visual do seu livro tem um pouco da rua. É feita por um grafiteiro, não é isso? OMAR SALOMÃO - Sim, é o Marinho, não é exatamente um grafiteiro, mas ele pinta as ruas. O que me interessa no grafite é uma certa agressividade que ele traz. E não essa coisa certinha que é feita hoje para decorar casas. E o mais interessante é que o grafite pode morrer a qualquer momento. O Marinho é genial. A marca dele está espalhada pelo Rio de Janeiro. Acho que temos que sair pra rua. A rua é muito viva! O que acho interessante na rua é que nela os imprevistos acontecem. Click(IN)VERSOS - Como vê o movimento artístico da sua geração? OMAR SALOMÃO - Acho que tem um movimento muito legal de pessoas de 20 e poucos anos. Está na música, na literatura, no cinema... Tem o Botika, que é uma figura bem interessante na literatura. Está tudo começando, mas com uma energia muito forte fluindo. Há uma enorme vontade de mudar esse mercado vazio. Hoje, não há crítica, há release. O mercado é Paulo Coelho, são cascas, só entretenimento. O legal do pessoal que está chegando é que eles querem colocar um pouco de conteúdo nesse entretenimento. Bagunçar um pouco com a hipocrisia. Click(IN)VERSOS - Além do seu pai, quais são as suas maiores influências? OMAR SALOMÃO - Eu não diferencio uma influência musical de uma influencia literária ou cinematográfica. Acho que os meus amigos são os que mais me influenciam: o Ingnácio que é artista-plástico, o Quinho e o Caio Barreto, que são da minha banda, o Vitor Paiva... São os papos loucos no bar, discutindo a validade do Tropicalismo. Ou falar mal do Caetano Veloso mas mesmo assim chegar em casa e colocar o disco dele pra ouvir. É ir à Tijuca conversar com Marcelo Yuka. É ler os antigos: Kafka, Borges, Camus, Pessoa, Drummond, Bandeira... Tudo isso. Acho que William Bonner (RISOS)... Click(IN)VERSOS- E o próximo livro? OMAR SALOMÃO - Estou escrevendo, ainda está bem no Início. Ainda estou tentando entender o que estou fazendo. Tem o nome provisório, Mercador de Nuvens... Estou deixando pra ver aonde a poesia vai me levar, mesmo fugindo dela. Eu abro o livro com uma frase que acho que traduz: “Quis um dia ser poeta para me livrar de todas minhas frustrações”. # A entrevista foi publicada em 02/01/2007. 15Jun2007 - 18:25 | ( 1 ) comentários
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