Rodrigo Bittencourt se considera essencialmente escritor. ‘Escritor de música, escritor de cinema, escritor de literatura...’ No meio de palavras, músicas e cenas de filmes ele tem construído uma estrada que parece ser longa e com diferentes rumos. Com um CD lançado, em 2003, (Canção Pra Ninar Adulto) e o outro em ainda em produção (Coleção de Amores), Rodrigo já comemora outras conquistas. Sua composição, Samba Meu, foi gravada pela Maria Rita e dá nome ao novo disco da cantora. Ele também vai dirigir uma série, intitulada Procurando Quem?, com treze documentários, para o Canal Brasil. E ainda, lançará o livro Esmalte Vermelho, pela Editora Língua Geral...
Toda essa característica polivalente tem despertado o interesse dos artistas mais atentos pelo seu trabalho. Tom Zé, por exemplo, em meados deste ano, o convidou para abrir um show no Circo Voador. Sorte? Pode até ser, mas imagino que ela está aliada a muita vontade e trabalho do rapaz.
Confira essa conversa com Rodrigo Bittencourt, que aconteceu no Café Severino, da Livraria Argumento, da caótica Copacabana.
Click(IN)VERSOS - Você é escritor, músico e cineasta. O que você realmente faz melhor?
RODRIGO BITTENCOURT – O que eu faço melhor? Cada uma dessas atividades tem o seu valor. Acho que música tem uma consistência mais forte porque faço há tempos. Comecei na música aos 14 anos. Mas por um lado eu trabalho com cinema há três anos e já acontecem coisas interessantes. Não dá para saber o certo. Tudo começou com a escrita.
Click(IN)VERSOS – Começou escrevendo o quê? RODRIGO BITTENCOURT – Comecei escrevendo poesia. Meu pai rasgava as poesias que eu colocava na geladeira, dizia que era ‘coisa de viado’. Com a poesia eu comecei a entender que eu tinha que botar as palavras para dançar. Primeiro eu escrevi poemas, depois fui estudar violão. Foi assim que deixei de ser só poeta para fazer música. Então está tudo junto, não tem separação.
Click(IN)VERSOS – Você faz música, poesia e cinema. Não tem receio de críticas?
RODRIGO BITTENCOURT – Não. Eu cago pra isso. Já me falaram: ‘Foca num lugar só que você vai conseguir melhor’. Isso é bobagem. Ainda mais hoje em dia com a globalização...
Click(IN)VERSOS – Você chegou a estudar teatro também...
RODRIGO BITTENCOURT – Sim. Eu estudei na UniverCidade, antiga Faculdade da Cidade. Cheguei a fazer seis meses de CAL, mas eu era muito rebelde e acabei reprovado...
Click(IN)VERSOS – Essa indisciplina está no processo de criação?
RODRIGO BITTENCOURT – Totalmente.Não tem regra de nada. Eu leio, vejo peças de teatro e assisto a muitos filmes. Faço muita música por causa de filmes. A música que a Maria Rita gravou, por exemplo, euestava assistindo a uma peça de teatro. O ator fez um acorde no violão que me acendeu a música inteira. Saí do teatro e fui pra casa fazer a música que estava na minha cabeça. Por isso eu falo que tudo é uma coisa só.
Click(IN)VERSOS – Mas existe diferença no momento da criação?
RODRIGO BITTENCOURT – Tecnicamente tem que funcionar diferente. Quando vou compor existe uma técnica. O cinema exige uma outra técnica.Mas para criar não existe essa separação. Arte antes de tudo é idéia.Quando me perguntam o que sou, digo que sou escritor. Escritor de música, escritor de cinema, escritor de literatura...Essencialmente escritor. Eu penso e escrevo coisas, inicialmente não interessa se é para o cinema ou para a literatura. Acho que a idéia que tem que mover o artista.
Click(IN)VERSOS –E o que te move?
RODRIGO BITTENCOURT – A arte. Sou artista vinte e quatro horas por dia. Acho que se não fosse a arte eu ia ficar deprimido. É clichê, mas é verdade. Fico o tempo inteiro pensando em projetos de arte.
Click(IN)VERSOS – Você diz que é essencialmente escritor. Com é essa relação com a escrita?
RODRIGO BITTENCOURT – Não há nenhum artista na minha família.Minto, meu avô chegou a compor umas marchinhas. Mas eu não tive contato com ele. Acho essa relação aconteceu pelas coisas que comecei a ler, ouvir... Quando eu tinha doze anos comecei a ouvir Michael Jackson, Caetano, Tom Zé... Uma coisa foi puxando a outra. Zé Celso falava em Sartre e eu ia atrás. Vinícius citava Rimbaud. Quem é Rimbaud? Eu ficava procurando o que essas pessoas estavam falando. Foi assim que despertou a vontade de fazer as minhas coisas.
Click(IN)VERSOS – O subúrbio é muito presente na sua escrita. Por que?
RODRIGO BITTENCOURT – Eu nasci em Laranjeiras, mas fui direto para Bangu. Morei no mesmo lugar desde os quatro anos. Saí de Bangu com vinte seis anos, mas aos dezesseis eu já vinha pra Zona Sul para fazer cursos. Os meus amigos me sacaneavam porque eu saía do futebol para ler um livro. Conheci, em Bangu, três pessoas que me despertaram para a Filosofia e Letras. Click(IN)VERSOS –O fato de ter vivido em Bangu te incomoda?
RODRIGO BITTENCOURT – Não. Acho que eu tive muitas vantagens por te saído de lá. Eu pensava que para vir para Zona Sul eu tinha que estudar muito, saber de Rimbaud. Aqui tem muita gente que vive a ‘arte’ apenas com o fato de ser filho de artista...Bangu foi muito importante para mim.No início existiu um pouquinho de preconceito, mas depois as pessoas viram que era besteira. Há algumas brincadeiras, como: ‘Quando você vem pro Rio? Isso está meio à Bangu...’
Click(IN)VERSOS – Quem mais te influencia na MPB?
RODRIGO BITTENCOURT – O Caetano Veloso.Ele é um cara incrível, que está atento a tudo. No Brasil, tem o Caetano, o Tom Zé e o Jorge Mautner que são muito fortes. E ‘lá de fora’ tem muita gente também: Radiohead, Pink Floyd, Beatles... No cinema, por exemplo, eu adoro Bergman, Tarantino e Glauber Rocha que é o cara mais foda do cinema mundial.
Click(IN)VERSOS – E na Literatura?
RODRIGO BITTENCOURT – De poesia tem o Paulo Leminskie o Manuel de Barros.Gosto muito do Bukowski e do Fante. Não leio muito romance não.
Click(IN)VERSOS – Então para que você escreve romance?
RODRIGO BITTENCOURT – Para tentar fazer uma outra coisa.É uma pretensão minha, mas é verdade.Estou escrevendo uma trilogia. O primeiro é o Esmalte Vermelho, que sairá pela (Editora) Língua Geral. Todos partem com uma idéia de filosofia.
Click(IN)VERSOS – Você lê a galera nova que está produzindo?
RODRIGO BITTENCOURT – Não, não li ninguém. Eu li a Clarah (Averbuck), li os três livros dela.
Click(IN)VERSOS –Você namora a poeta Maria Rezende. Como é conviver com uma pessoa que trabalha na mesma área?
RODRIGO BITTENCOURT – É ótimo porque falamos a mesma língua, não só na literatura como no cinema. Ela que vai montar os filmes que estou dirigindo para o Canal Brasil. Também vamos voltar com o Te Vejo na Laura. Acho que tudo tem vários lados: bons, ruins, negros, brancos... É bom trocar com uma pessoa da mesma ‘espécie’.
Click(IN)VERSOS – Você já fez um documentário sobre o Ferreira Gullar e outro sobre o Jorge Mautner...
RODRIGO BITTENCOURT – O Por Acaso Gullar eu e Maria (Rezende) dirigimos para exibir no evento Te Vejo Na Laura. Foi por acaso, como o nome diz. E o filme sobre o Mautner surgiu de uma conversa, com o Caví (Borges), sobre a dificuldade de se achar os artistas... Assim nasceu o ‘Procurando Jorge Mautner’ que acabou virando a série Procurando Quem?, no Canal Brasil. Vamos procurar Clarah Averbuck, Alceu Valença, Moraes Moreira, Julinho de Adelaide, João Gilberto, Los Hermanos... São treze documentários.
Click(IN)VERSOS – Seu interesse é pelo documentário?
RODRIGO BITTENCOURT – Não. Esse Procurando Quem? é metade documentário e metade ficção. Eu brinco com o lance da verdade e mentira. Inspirado no filme do Orson Welles, For Fake. O que é verdade e mentira na arte? Escrevi O Dono da Bola, um filme de ficção, para o cineasta Sérgio Rezende, mas deve ser para o ano que vem.
Click(IN)VERSOS – Você ainda consegue tempo para a música?
RODRIGO BITTENCOURT – Sim (RISOS). Pretendo lançar o meu segundo disco ano que vem, pela Nastasha e EMI. Chama-se Coleção de Amores e é produzido pelo Nilo Romero.Mas, em 2003, já havia lançado, o Canção Pra Ninar Adulto.
Click(IN)VERSOS – Como foi a experiência de abrir o show do Tom Zé?
RODRIGO BITTENCOURT – Porra, foi o melhor dia da minha vida. Não por ter tocado, mas por ter encontrado com ele na passagem de som. Abracei o Tom Zé e disse que conhecia todas as músicas. Isso foi incrível! Cantar com o cara que me despertou para a música foi emocionante. Tom Zé, astronauta libertário.
'SAMBA MEU' - RODRIGO BITTENCOURT
Click(IN)VERSOS – Como foi essa história da Maria Rita gravar a sua música?
RODRIGO BITTENCOURT – Isso foi muito louco.Eu e o Mauro Sta. Cecília estávamos compondo, quando soubemos que a Maria Rita estava buscando músicas novas. Mandamos para os produtores dela um samba chamado Eu, você e Gisele Bundchen. Depois pedi para mandar umas músicas minhas também, mandei cinco músicas. Um amigo fotógrafo me deu o e-mail do produtor, mas ele nunca respondia. Por último, mandei o Samba Meu. Depois de quatro meses a produtora me ligou para avisar que ‘Samba Meu’ foi escolhido para ser gravado e dar nome ao disco. É muito bacana!
MARIA RITA CANTANDO 'SAMBA MEU' (RODRIGO BITTENCOURT)
Click(IN)VERSOS – Quando sai o seu livro Esmalte Vermelho?
RODRIGO BITTENCOURT – Não sei. A (editora) Língua Geral disse que vai sair ano que vem...
Click(IN)VERSOS –Do que se trata o livro?
RODRIGO BITTENCOURT – É sobre um biógrafo que busca personagens estranhos para escrever o livro. Ele se interessa por um personagem que é tão apaixonado por mulheres que acaba se tornando uma mulher.
Click(IN)VERSOS –Você diria que é uma um homem de alma feminina?
RODRIGO BITTENCOURT – Sim. Eu sou lésbico. Sou muito viado e amo mulheres, então eu sou lésbico. Amo as mulheres.
Click(IN)VERSOS –O que você diria a um jovem que quer se dedicar à arte?
RODRIGO BITTENCOURT – Escrevi uma poesia que diz: ‘Nervos têm êxito’. Acho que esse é o segredo. Se você faz as coisas com as veias e coragem então o sangue corre. As coisas acontecem se você fizer as coisas com verdade.