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 Senhor da Fantasia

(e suas lamentações)

         
 Respondo pela carcaça "identitário-nomenclativa": André Assunção

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 Minhas postagens são mensais e    abordam temáticas variadas.

 

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ποιέω (poiésis) – Em Busca da Arte

A humanidade hoje, na segmentação temporal dicotômica chamada contemporaneidade, dialoga com uma miríade de gêneros e sub-gêneros artísticos com estruturas diversas e particulares e que são, frequentemente, catalogados e inventariados dentro de arcabouços específicos e ignorantemente reducionistas. Dessa forma, dada a dimensão deste molde sobre o qual encapsulamos a Arte, faremos um percurso em outra dimensão, mas que se liga rigidamente a essa: o que vem a ser fundamentalmente o “processo” artístico? Inicialmente, dentro desta inquirição, pode-se dizer de cara que o que possibilitou a emergência do “processo” que chamamos de Arte é ahistórico, isto é, não há possibilidade de ser comportado pela classificação temporal da verdade científica – em forma de discursos das autoridades ligadas às ciências e responsáveis por abarcar o passado que calam, para se tornarem então os construtores do seu “ser”. Contudo, antes de alcançar o objetivo final deste texto (onde há só um meio pelo qual ele se multiplica), que é o terreno onde será abordado os problemas na relação de sujeição presente no trabalho de crítica e análise do que é tido como Arte, gostaria de caminhar por uma trilha onde a provocação meditativa será o objetivo motor.

 

A poesia, que hoje tem um significado representativo ligado a uma expressão “literária”, é na verdade, numa reflexão fenomenológica, o próprio processo de pensamento ou (numa tentativa de fugir de representações) de criação. Ora, se refletirmos sobre o momento onde os seres humanos, seja de qual forma isto se manifestou, em algum lugar no devir do movimento contínuo do acontecer – sintetizando: do tempo –  ligou, pela primeira vez, um balbuciar à um objeto que se mostrava (é prudente lembrar que o que se mostra já traz em si o seu mostrar), um objeto inerte (ou não) que emanava existência; poderíamos classificar, sem muito esforço reflexivo, toda essa elaboração envolvida como um processo de criação, ou seja, o ser humano, na alvorada da construção da experiência sígnica, já era um poeta (de fato seria preciso desenvolver mais a noção embrionária do processo criativo humano, e um caminho válido seria discutir os primeiros signos cravados em rocha, onde o homem já demonstrava variações mais complexas nas suas formas de expressão, no entanto, não há espaço aqui para esse tipo de desenvolvimento – ficará para uma ocasião oportuna). E se continuarmos neste caminho esquadrinhativo poderemos tocar levemente o Ser fundamental da Arte; logicamente explicitando que, como diria Adorno na Dialética do esclarecimento, “o conceito é a ferramenta ideal que se encaixa nas coisas pelo lado por onde se pode pegá-las” (para os menos afeitos às idéias de Adorno, isso significa que conceitos nunca podem dar conta plenamente do Ser que tentam indicar, apenas fazem um aceno neste caminho; e ainda há o problema das representações, que frequentemente se distanciam deste Ser), e por isso mesmo há a prudência em dizer que apenas tocaremos essa idéia sobre Arte (criação/poesia/pensamento), talvez, sendo ousado, com as pontas dos dedos.

 

Os procedimentos artísticos, em sua essência, são procedimentos de criação (leia criação aqui dentro do pensamento grego) e, deste modo, são também procedimentos poéticos; isso é fácil de constatar, agora vamos para a questão um tanto mais complexa, para depois desaguarmos na questão hermenêutica relacionada à Arte. O pensamento (poesia) se funda no “mundo” do caos (mais uma vez intervenho para ressaltar que o “caos” aqui não é tido como o desorganizado – os sistemas de representação assim o definem hoje – mas sim, na sua forma ôntica, o aberto à possibilidade), e quando o aprisionamos em uma coerência de signos, um poema por exemplo, delimitamos as possibilidade desse aberto, embora essa idéia de aprisionar as possibilidades seja apenas uma ilusão, pois mesmo esse poema aprisionado será um universo de possibilidades para o leitor, e até para o “criador” (autor), que no instante da criação era outro, mas também era ele mesmo, só que de forma diferente.

 

Existe regra ou técnica para analisar Arte? Uma pergunta desse teor me parece fundada no campo do cartesianismo, que sugere um método lógico estrutural para perquirir tudo. Não vou entrar aqui em uma discussão sobre a importância ou não do cartesianismo, do positivismo e seus consangüíneos para a ciência moderna, me limito a sugerir de forma bem geral, grosso modo, seus malefícios para as reflexões das coisas humanas como se fossem coisas físicas, ou seja, todos os velhos problemas estruturalistas da modernidade, já longinquamente catalogados por mentes soberbas das ciências humanas.

 

E sem mais delongas, veja que o objetivo inicial desta reflexão sobre os procedimentos críticos e analíticos considerando a Arte se torna mais claro agora, afinal, conceituando o olhar para a produção artística na instância do aberto à possibilidade, a partir do plano da hermenêutica fenomenológica, podemos dizer que a Arte deve ser vista dentro de um campo onde a possibilidade mínima de reflexão é o infinito, destarte, ao nos colocarmos diante da manifestação da obra, não há limitações para o mostrar-se dessa obra para os nossos olhos. Muitas vezes, discursos com pouco significado para o autor (escritor; realizador) ou para algum leitor, soa de forma grandiosa para outros, numa multiplicidade rizomática de possibilidades (assim como o contrário também). Por certo existe ainda, infelizmente, a crença na sujeição do objeto artístico – e não só deste – (nessa velha perspectiva maniqueísta e dicotônica “essência X substância” ou “supra-sensível X sensível”) e na elaboração de interpretações que seriam verdades absolutas fundadas numa idéia de competência científica (a autoridade). Por certo, a única regra para uma apreciação profunda e múltipla da Arte é a erudição, pois é aí onde se abre ainda mais o leque de possibilidades hermenêuticas, possibilitando construções simbólicas em um nível coerente com a capacidade humana de cognição. Não é um caminho fácil, mas é o caminho necessário.

 

Essa pequena reflexão sobre Arte se limitou a uma idéia fundamental de Arte, no campo da poética grega, portanto, os rizomas que demonstrariam como a Arte, em suas diversas instâncias, se atrelou à “estruturas” sociais diversas em formas diversas, ou às relações contemporâneas da Arte com as questões mercadológicas e cientificistas dentro do nosso atual socius capitalista, ou ainda como, dentre todos os discursos, porque alguns são idealizados e postos a funcionar como Arte, não serão aqui tratados. Contudo, já caminhando para o desfecho do texto, é preciso dizer, quase que como um postscriptum, que como coloco a Arte no campo da poética (criação/pensamento), certamente concordo que muito do que é produzido hoje e discursivamente funciona como Arte, está no campo de sistemas de reprodução e representação dentro da instância do que chamamos de indústria cultural, isto é, na intenção de abranger o máximo de consumidores de camadas sociais diversas, o que não considero nada saudável para “liberdade” de criação artística. Mas adentrar nisso já é uma outra história.

 

Para a boa degustação da conceituação do texto recomendo:

 

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento.

DE CERTEAU. A escrita da história.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber.

GADAMER. H-G. Linguagem e Compreensão.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo (Vol. I).

HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica.

SARTRE, J. P. A imaginação.

SARTRE, J. P. A náusea.

20Abr2009 - 00:02 | ( 0 ) comentários

Um Besteirol Sobre Signos

Olá a todos! Tenho estado ausente por um tempo, embora essa ausência tenha seus motivos. Agradeço aos que continuam visitando o blog e lendo essas idéias experimentais. Segue abaixo mais alguns arrotos bestiais.

É interessante pensar que todos os sentidos mnêmicos humanos estão, de alguma forma, ligados signicamente; certamente essa é uma herança dos primórdios do pensamento hermético (para saber mais vide “Interpretação e Superinterpretação” do semiólogo e romancista Humberto Eco) . Na verdade, não poderia ser herança, pois aí teríamos que considerar a morte desse pensamento, embora seja claro que ele continue vivo no diálogo humano com os entes. A forma como as palavras foram sendo elaboradas nesse diálogo demonstra a linha, ou círculo, ou espiral onde vemos idéias ligadas à idéias.

Para ficar mais claro essa proposição basta que elaboremos dois exemplos demonstrando simples possibilidades: 1) uma estrela no céu é uma elaboração sígnica arcaica na memória humana, mas uma estrela do mar, animal aquático, se tornou estrela graças a atribuições analógicas, ou seja, um conceito nomenclativo já elaborado deu forma a outro conceito. 2) também existem as ligações que geram resultados que estão além dos significados e significantes; por exemplo, o coração é o órgão responsável pelo bombeamento de sangue para todo o corpo; já o amor, grosso modo, é um sentimento que se relaciona a uma afinidade profunda que umas pessoas têm por outras. Veja que tanto o amor quanto o coração existem de forma independente, isto é, não precisam necessariamente um do outro para existirem, mas no momento em que alguém desenha um coração e coloca dois nomes a sua volta, o coração se torna instantaneamente amor (nesse caso, eles ligam-se através da enciclopédia cultural de uma comunidade). Os limites da decodificação de uma proposição sígnica como essa – signo “coração-amor” –, no mundo contemporâneo, graças à maneira como transitam as informações (leia mundialização), pode ser verificado em várias culturas diferentes.

Em uma conversa com qualquer pessoa vemos como é natural um assunto ou uma idéia se ligar a outro assunto e seguir numa órbita elíptica que não se estende ao infinito pelo simples motivo da impossibilidade de mantermos uma conversação infinitamente. As expressões “a propósito” ou “por falar nisso” são exatamente os links “formais” de ligação de um assunto para outro, embora em muitos casos, em um diálogo, o trânsito se dê de maneira “informal”, direta e livre de anúncios.

A modernidade fundou uma dicotomização sem precedentes na história da humanidade, no entanto, vemos o quanto todas essas dicotomias são apenas ilusões que nos distanciam do Ser dos entes. Por exemplo, é comum haver uma separação entre homem e natureza, embora o homem também seja natureza, afinal, tudo o que construímos foi dentro e em contato com uma “estrutura transbordante”: a natureza. Alguém já parou pra pensar que morte é vida e que vida é morte? Não existiria morte se não existisse a vida e vice-versa.

O pensamento cartesiano e o uso que fizeram do pensamento de Platão se tornaram o sistema de idéias visivelmente presente no cotidiano do homem contemporâneo. Praticamente tudo se construiu e se constrói dentro de dicotomias e representações. Mas o mais complicado é pensar que o homem nem sequer tem consciência dessa condição, e pode nunca chegar a ter.

Neste texto, tentei manter uma coerência estrutural dentro de um assunto específico, embora várias vezes fui tentado a ir para outros destinos discursivos e me perder no infinito mundo da poética.

Até a próxima!

 

27Jan2009 - 01:38 | ( 2 ) comentários


Ciência e Poder

Nesta postagem vou tentar fazer algo inusitado: construir um breve texto onde abordo Michel Foucault, em um de seus brilhantes momentos no seu importante livro, A Microfísica do Poder, utilizando também o filme Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo's Nest, do diretor Milos Forman, 1975), para realizarmos uma análise e uma comparação com o tema da “autoridade científica”, em especial da ciência médica psiquiátrica. Só uma ressalva antes de começar: perdoem-me por não estar tão inspirado para escrever; estou travando muito hoje.

Os sistemas de vigilância que fazem a “égide” do mundo moderno estão além de simples instituições normatizadas que cumprem funções de defesa da ordem vigente carregando um discurso de que trabalham em prol da sociedade. Um louco que é internado por ser considerado uma anomalia na sociedade contemporânea passa por uma série de processos que, se formos analisar, chegaremos a toda uma estrutura subjacente que se renova e se reafirma. O fato é que “nem tudo é verdadeiro; mas em todo o lugar existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que no entanto está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada”. É o que diz Michel Foucault sobre a verdade, nos permitindo fazer abstrações para perquirir sobre os discursos que correm, funcionam e se afirmam como verdade. Mas antes de irmos além é preciso fazer uma introdução mais delineada para então chegarmos às verdades da ciência, no caso deste texto, a ciência médica psiquiátrica. Aproveitarei o filme Um Estranho no Ninho para analisarmos de forma mais clara, uma vez que teremos a oportunidade de citar exemplos que podem ilustrar as estruturas que vigoram no mundo moderno.

A filme aborda a história de um homem que estava em uma prisão para criminosos (é bom classificar, pois há diversos tipos de prisões hoje) e através de algumas alegações consegue uma transferência para um hospício, onde passa a conhecer o cotidiano do lugar, o perfil dos pacientes, o perfil das enfermeiras e dos psiquiatras. Apesar de não parecer demonstrar características de psicopatias mentais, o personagem principal permanece sob observação, e de acordo com o relatório do psiquiatra, sua estadia ali e seu período de avaliação se justificam pelo fato dele “não gostar de trabalhar”, “por ter uma personalidade bastante agressiva” e etc., sendo que as observações do relatório médico-psiquiátrico jamais justificariam sua estadia no hospício. O fato é que o personagem fazia uma espécie de teatro, fingindo ser “louco”, para poder sair da cadeia, um lugar de enclausuramento total e de vigilância extrema. Mas o que ele não esperava é que fosse encontrar no hospício todo esse sistema de vigilância, enclausuramento e repressão estruturalmente iguais aos da prisão, só que com roupagens diferentes.

Apesar do filme ter um roteiro de ficção, toda a construção cenográfica e comportamental foram baseadas na realidade de um hospital psiquiátrico. Entretanto, o que importa observar de forma mais densa é o questionamento sobre o saber médico-psiquiátrico. Será que um profissional que se diz apto a avaliar se alguém está louco ou não, ou ainda, se alguém pode permanecer em convivência com a sociedade ou não, cometeria erros tão grosseiros como os presentes na história da psiquiatria? Ora, o psiquiatra já enclausurou no século XIX e XX pessoas que em nada podiam ser chamadas de loucas, e os discursos teóricos ao qual estão sujeitos partem de um conhecimento bastante duvidoso. O que quero dizer é que o poder psiquiátrico tem o conhecimento normatizado pelas instituições modernas, no entanto demonstra claramente que não tem o saber; o psiquiatra pode mandar qualquer um para o hospício ou manicômio, pois ele tem o poder afirmado pelas normas, que já se tornaram culturais, do Estado moderno. Em outras palavras: ele tem o diploma; ele é o autor (autoridade) e supostamente pode avaliar a sanidade de alguém a partir do seu conhecimento; e o poder que lhe é conferido pode enclausurar qualquer um. É realmente um grande poder concedido a prática psiquiátrica.

O sujeito (no sentido sujeito-objeto) psiquiátrico é dono do conhecimento psiquiátrico e cala a voz do objeto que não pode entender ou compreender, e que não está apto a questionar o laudo de um indivíduo dono do poder do conhecimento. Agora podemos compreender com mais clareza a citação de Michel Foucault, descrita ainda no começo do texto, que fala sobre a verdade: e o que é a verdade científica psiquiátrica senão uma verdade que circula e funciona como um discurso a ser aceito, mas que nem sempre pode ser visto como uma verdade.

Ao falarmos sobre o psiquiatra, se torna vital falar sobre o “hospital especial” que o psiquiatra desenvolveu – já que é ele a autoridade que define isso – para seus “pacientes especiais”. E como o filme Um Estranho no Ninho demonstra magnificamente bem o sistema prisional que é um hospício, vamos utilizá-lo como exemplo. Na película, um dos personagens que mais causam ódio nos espectadores é a enfermeira-chefe. Uma mulher extremamente autoritária que o tempo todo faz funcionar o sistema de vigilância, repressão e enclausuramento do hospício, que já é um ambiente fechado e claustrofóbico. Sempre implacável, sua atitude certamente não ajudaria na recuperação ou mesmo apaziguamento dos ânimos de pacientes com supostas complicações mentais, principalmente em um ambiente onde tudo é medido, tudo é racionado, tudo é vigiado.

Um recinto como um hospício, onde até mesmo pessoas “normais”, se fossem internadas, se tornariam loucos, não é o melhor lugar para tratar de pacientes com enfermidades mentais; sem falar na prática geral de dar remédios neuro-psico-terápicos que mudam em grande escala as reações de um indivíduo, mesmo que fosse considerado de sanidade normal.

Como indicação, posso dizer que esse é um grande filme para quem quer compreender, de forma leve e genérica, a realidade prisional de um hospício, onde o saber psiquiátrico é guiado por um conhecimento que chamaríamos de abstrato, pois não condiz com a realidade e a necessidade médica da terapia que os pacientes realmente precisariam. O hospício funciona como uma prisão, como uma exclusão, não como um tratamento ou uma reabilitação, e assim como as prisões, os hospícios se constituem armas do poder, são a manifestação do discurso do próprio poder do intelectual. E como questionaria Foucault:

 

“É possível que a produção da verdade da loucura possa se efetuar em formas que não sejam as da relação de conhecimento? Problema fictício, dirão, pergunta que só tem seu lugar numa utopia. De fato, ela se coloca concretamente todos os dias a propósito do papel médico, do sujeito depositário do estatuto do conhecimento, no trabalho da despsiquiatrização” (Microfísica do Poder).


 

21Set2008 - 23:31 | ( 6 ) comentários

Surpresas

Por André Assunção

 

 

A

cordo bem cedo e passo a pensar em todos nossos momentos elegantes e majestosos. Ainda me lembro de cada detalhe dos nossos primeiros beijos, e como isso me elevou a um outro patamar que me fazia transcender a horizontes ainda não visitados pela minha alma. Ela me fez bem, e é só nisso que consigo pensar. Me tirou do abismo profundo e suicida de tempos sombrios para da minha existência precoce e prematura.

Passo cerca de uma hora me aprontando. Escolho a roupa e cada um dos minuciosos detalhes para fazer do nosso encontro o melhor, e assim renovar sempre nosso amor e nossas surpresas. Minha camisa florida preferida, com botões estilizados no formato do broche do Comediante, um personagem de Watchmen; uma boa e velha calça jeans complementa com sua simplicidade, essa que, talvez, esteja no hall das melhores invenções dos norte-americanos; nos pés, aquela sandália de couro nordestina que ela me deu de presente; por fim, como de costume, escolho meu companheiro de todos os dias para enfeitar minha cabeça desestruturada, embora feliz, um chapéu ao melhor estilo Sandman. Logicamente não esqueço do perfume, em borrifadas específicas, que contagia o ar com uma fragrância que entorpece como se fosse uma dose cavalar de psylocibe cubensis em pó.

Na tranqüilidade de passos mágicos rumo ao encontro de uma donzela que, de alguma forma, é para mim uma espécie de amor idealizado; em outras palavras, pode ser que eu a ame mais do que acredite que amo, mas foi ela quem me tirou da “fortaleza da solidão”, não aquela que é um refúgio para o Superman, e sim uma outra, uma que me afundava no interior dos mais fúnebres e macabros pensamentos.

Os passos são mágicos, e também são lentos, o que me permite apreciar a bela paisagem da primavera e observar algumas flores. A mais linda delas será escolhida para minha amada. Não demora muito e meus olhos observam algo que brilha com sua própria essência, como se fosse a maior estrela visível na Via Láctea. É uma rosa vermelha, que em um mundo preto-e-branco, como a Sin City de Frank Miller, seria a única coisa que emanaria uma outra cor, assim como minha bela donzela. Retiro meu canivete de um dos bolsos e colho-a delicadamente; corto os espinhos para não machucar as mãos delicadas de alguém que eu jamais machucaria. O aroma magistral da rosa me faz flutuar e, por alguns instantes, me sentir acima das nuvens.

Uma brisa mais forte me agracia com um pequeno redemoinho brincalhão que carrega as folhas secas para o alto; por algum motivo me vem a memória o episódio do Mickey em sua epopéia contra um pequeno redemoinho filhote. O ar está maravilhoso e o sol matinal aconchegante; nada poderia ser mais perfeito. De longe avisto a colina onde minha flor incandescente fixou suas raízes. É lá que ela mora, e é para lá que caminho quase que inconscientemente. A euforia e a ansiedade me desgastam por um momento. Não demora e estou na frente de sua casa; vou beijá-la e surpreendê-la com essa visita surpresa.

Respiro fundo e dou atenção apenas ao meu coração e a esse sentimento inexplicável que me move por todo esse tempo. De outra forma já teria tirado a minha vida, que nunca teve um sentido claro ou uma sensação de liberdade; a morte seria uma solução aceitável e bastante clara, mas minha amada me deu motivos para continuar; ela me faz viver hoje. Volto os olhos para o mundo material e fixo-me na porta. Dou três leves batidas e aguardo. Ninguém aparece! Volto a bater. Aguardo. Nada ainda!

Lembro-me que ela gosta de passeios matinais no bosque visinho à sua casa. A rosa reluzente ainda continua em minha mão. A euforia e a ansiedade agora aumentam mais. Me incomodam e me desestabilizam.

Caminho não tão tranquilamente como antes para o lugar em que, geralmente, ela faz suas meditações, leituras, apreciações da natureza ou, mais especificamente, ornitologia. Distante, já observo sua presença por trás de alguns arbustos. Ela está estonteante em um vestido leve e solto; sinto, depois de tê-la avistado, que estou num mundo em câmera lenta ao som de Flamenco Sketches de Miles Davis, com a impressão de déjà-vus infinitos. Me aproximo sorrateiramente para assustá-la numa brincadeira nada romântica, embora posteriormente riríamos dessa peripécia.

São nove passos, faço questão de contar, os detalhes têm um gosto especial para minha memória. Mais próximo agora, vejo algo que me arranca o chão dos pés; me lança no crepúsculo do inferno. Ela, saltitante e sorridente, pula nos braços de um rapaz belo como os “mocinhos” dos filmes de romance. Vejo com olhos lacrimejantes um beijo apaixonado, que em um mundo preto-e-branco também parece ter outra cor; como a flor em minha mão; como a tristeza dentro de mim.

O dia, que havia começado de forma tão magnífica, agora era o verdadeiro purgatório, me lembrando que tudo é instável e relativo; que só a angústia nos leva a pensar em nossa essência primordial nesses dias de corrida material, onde somos apenas ventríloquos.

Olho a flor e agora ela está cinza. Sigo de volta para casa. Tudo o que vejo ao redor está murcho e sem vida, como nos tempos em que não via sentido em viver. No caminho vejo uma loja que comercializa produtos de limpeza. Peço ao vendedor um recipiente com ácido muriático (ácido clorídrico) e, cambaleante, com soluços de tristeza profunda mergulho na “fortaleza da solidão” dentro da minha casa. Os goles taciturno são apavorantes de dor, no entanto, depois não haverá dor nunca mais.

 

9Ago2008 - 20:23 | ( 4 ) comentários

Amor? Love? Amour? Liefde? Liebe?

Ao tratarmos de conceitos ligados a uma forma subjetiva/objetiva de sentimentos e sensibilidade, certamente o epicentro para um perscrutar está refletido no padrão “normatizado” pelos processos sócio-culturais em determinadas sociedades e tempos. Isso significa que em determinados povos e culturas específicas, há diferenças consideráveis nas concepções sobre conceitos sentimentais, como o amor, o ódio ou mesmo a relação com a finitude (morte).

Através da linguagem, foi possível a padronização cultural da relação sentimental; por exemplo: os Romanos tinham concepções diferentes em relação ao mundo infantil. Não havia concepção de amor pelas crianças como o perceptível na contemporaneidade (isso se atendo apenas ao mundo ocidental). Uma atitude sócio-política clara, e que esclarece bem essa relação, é a lei instituída pelo Império para dar fim às crianças que eram abandonadas pelos pais. Se refletirmos, podemos ainda chegar à conclusão de que isso era um fator comum e até certo ponto problemático para o contexto e necessidades sociais do período em questão, pois foi necessário que o Estado instituísse uma lei para dar fim aos abandonados que fossem refugados pelo mundo da prostituição – em geral mulheres – ou da escravidão – em geral homens – (lembrando que escravidão e prostituição têm arcabouços diferenciados na cultura Romana, assim como em outros momentos históricos).

Na construção em relação a conceitos, quaisquer sejam, sempre há um processo, verificável historicamente, dos adventos de identidade cultural-étnica de povos, que se desenrola naturalmente através do convívio e relacionamento de grupos humanos desde os primórdios da existência da espécie – logicamente no mundo arcaico os padrões ainda eram muito primários, mesmo porque a linguagem precisa do tempo e da memória para se constituir nos seus aspectos mais plenos e complexos.

O amor se enquadra a um conceito em que suas determinações e profundidade podem variar de acordo com a cultura e o momento histórico. Uma linha singular (no que tange o amor) entre as diversas culturas pode ser encontrada no fato do amor estar ligado a uma afinidade forte entre seres, muitas vezes com ressonância individual, mas que está delineado por simples e complexas relações de afinidade sentimental.

Discorrer sobre temas abstratos que só se mostram claros no íntimo do mundo supra-sensível nunca é uma tarefa fácil. E é válido dizer que temas desse teor geram teses e mais teses que se desdobram em páginas e páginas e muitas vezes não dizem muito. Nesse pequeno texto, tentei explicar, a grosso modo, como podemos enxergar o amor. Mas o que deve ficar claro na cabeça de qualquer ser humano é que o amor é um sentimento que tem suas características gerais “identitárias”, contudo, mesmo através dessa identidade, seu reflexo mais profundo se encontra no âmago subjetivo, dado sua profundidade e complexidade.

 

 

18Mai2008 - 14:44 | ( 2 ) comentários

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