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MARANAtHA, por Breno Alves | ||||
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Através dessas crônicas e contos, ditados aqui de forma aleatória, busco expor as minhas verdades mais íntimas e a Verdade de Deus que habita em mim
"Guardai-me, ó Deus, porque é em vós que procuro refúgio. Nossa Senhora do Carmo |
“(...) E [o principezinho] voltou, então, à raposa: - Adeus, disse ele... - Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.” (SAINT-EXUPÉRY, Antoine. O Pequeno Príncipe. Tradução de D. Marcos Barbosa, 18. ed., 1975. p. 74) O livro é, em boa medida, não só fonte de riquezas para as crianças, mas para todos os que se dispuserem a desvendá-lo com um olhar mais atento. Os ensinamentos que ele revela são úteis, por exemplo, para o aconselhamento de tantos jovens que, hoje, apresentam inúmeras feridas na sua afetividade e mostram-se incapazes de assimilar a essência da caridade, fruto do encontro pessoal com Deus e com os irmãos. A raposa do livro nos fala de algo que nos é essencial, de uma descoberta que só pode ser feita pela voz do coração. Os nossos olhos não nos são necessários para enxergar essa verdade tão plena e rica de sugestões; apenas com a nossa entrega pessoal é possível desvendar esse algo que é tão caro a nós e que nos preenche por completo. O que é, afinal, essencial para nós, jovens de hoje? A virtude do amor é, hoje, afastada de seu significado primordial, que nos foi revelado por Cristo na Cruz – o próprio exemplo de Seu esvaziamento, preenchendo-nos com a plenitude da caridade divina. Os jovens, ao contrário, aprendem, a cada dia, a mascarar o verdadeiro valor do amor por sinônimos que lhe retiram sua verdadeira razão de ser. A afetividade vivenciada pela juventude é profundamente marcada pelo materialismo, pela busca cega dos prazeres que apenas amenizam o profundo vazio deixado no coração pelos modismos. Os adolescentes afastam-se de sua vocação primeira – a vivência plena da afetividade e da sexualidade – em troca do gozo fácil e rápido proporcionado pela prática dos relacionamentos feridos, da masturbação, do sexo prematuro e das “ficadas”. O amor é desprezado; em seu lugar, entram as relações marcadas pelo descartável, pelo transitório, nas quais os jovens assimilam que a vivência afetiva é empecilho da felicidade tão almejada, a ser atingida pelo status e pela falsa liberdade. A vivência espiritual é igualmente desprezada pelos jovens. Acostumando-se com os paliativos, os jovens esquecem o fundamental preceito do amor, enviado a nós por Deus, que é amor (cf. 1 Jo 4, 16). Jesus, que veio ao mundo para testemunhar o Pai de Amor, vivencia na própria carne a excelência da caridade, repassando à Igreja o fruto maior de Sua doação: a Eucaristia. Mergulhando no Corpo e Sangue de Jesus, aprendemos a ser amados e amantes, libertando-nos do pecado e aprofundando-nos no oceano infinito da misericórdia de Deus. Maria Santíssima, os apóstolos e os santos aprenderam a confiar amorosamente na ação salvífica da Trindade em suas vidas, pela vivência concreta do amor a Deus e ao próximo. O Papa Bento XVI, em sua encíclica Deus é amor, ensina-nos que a unificação do homem com Deus “não é confundir-se, um afundar no oceano anônimo do Divino; é unidade que cria amor, na qual ambos – Deus e o homem – permanecem eles mesmos mas tornando-se plenamente uma coisa só”. O jovem, desejando auto-afirmar-se, afasta-se de Deus em sinal de revolta e indignação; este afastamento acaba por descaracterizá-lo, retirar-lhe a personalidade. Somente em Deus é que o jovem descobre a verdadeira identidade e, conseqüentemente, a própria razão de sua existência, o que lhe suscita o amor. Nesse sentido, Santa Teresa de Lisieux afirma: “Com amor, não caminho apenas, ponho-me a voar...”. A lição da raposa é um eco daquilo que o próprio Deus vem revelando ao homem na história da salvação. E que vem repetindo, hoje, no coração dos jovens desorientados e servos da alienação: “O que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7b). O Pai Eterno, que criou o universo inteiro com perfeição e ternura, escolheu o minúsculo coração do homem para fazer a sua morada predileta, regozijando-se em estar naqueles que ama. Deus sabe que a juventude busca desesperadamente o sentido da própria história e que faz dessa procura um meio de abrir-se ao novo que lhe chega, como o principezinho da história. Desejam os jovens experimentar o amor e dele extrair a suma felicidade, da mesma forma que o nosso nobre menino. E Cristo permite-lhes esta experiência, através da bela lição de Sua morte e ressurreição, fazendo-os descobrir que o amor é a chave para desvendar o mistério da vida e para encontrar, de maneira íntima e inesquecível, o seu Autor. Perdendo-se nas suas inúmeras inquietações e desejos, que acabam por lhe desorientar, os jovens esquecem-se do essencial em suas vidas (e na vida de todos os homens, por fim): o amor de Deus, que se doa aberta e livremente para nós. Guardar esta verdade fundamental é a chave para a cura dos males que atingem a juventude, e o meio de ensiná-la a ter, enfim, a estatura de Cristo. O amor da Trindade, que é verdadeiro, acaba por trazer a verdadeira sexualidade, a verdadeira liberdade e a verdadeira paz. O Catecismo da Igreja Católica, ao caracterizar o Ser divino, define-O com clareza: “(...) o próprio ser de Deus é Amor. Ao enviar, na plenitude dos tempos, seu Filho único e o Espírito de Amor, Deus revela seu segredo mais íntimo: Ele mesmo é eternamente intercâmbio de amor: Pai, Filho e Espírito Santo, e destinou-nos a participar deste intercâmbio” (CIC, 221). Esse é o segredo do amor, revelado a nós não pela superficialidade dos “olhos”, mas com a profundidade e a delicadeza do “coração”. Cabe, pois, aos jovens o convite à perseverança no amor feito por Cristo: “Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Perseverai no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu pai e persisto no seu amor” (Jo 15, 9-10). O amor, o autêntico e verdadeiro amor, trazido a nós por um Deus que é, Ele mesmo, o Amor em pessoa, ensina-nos a viver a alegria da confiança e da libertação da própria pequenez, levando-nos a abraçar o Eterno. O jovem, que anseia, antes de tudo, viver a plena liberdade, não pode esquecer-se do “essencial” – o Deus de Amor –, que é o sentido da sua existência e a chave para vivê-la integralmente. 6Abr2006 - 17:26 | ( 14 ) comentários A tarde passou como um sopro diante de nós. Era um sítio imenso, todo cortinado, as janelas dando para a infinitude das jabuticabeiras e mangueiras, o sol translúcido que caía no anil brilhante feito uma pena a voar, e o vento que, sorrateiro e amplo, invadia os varais e fazia gemer as portas e os umbrais. Não fosse véspera de Natal, podia-se imaginar ser um dia como outro qualquer, pois a modorra era a mesma, o canto amestrado das andorinhas não havia ainda cessado e a casa toda parecia tomada de uma tranqüilidade esquisita, opaca. Vó Maria zanzando pelo corredor com seu avental suado, Francisca bitolando com o peru estiolado no laminado da pia, Tia Augusta aturdida com os presentes, suas folhas luzidias espalmadas feito uma festa na mesa da copa. Eu brincava só, não tinha outra coisa a fazer, não me deixavam bater bolo nem beliscar a carne da ceia. Estava agastada de tanta apreensão, queria logo que as luzes da sala se acendessem para que chegasse a meia-noite e seus mistérios soturnos. A luz invadindo o corredor dos galhos da árvore, eu afobada chupando uma manga madura sob a sombra grossa do mangueirão perto do poço, esperando impacientada que tudo ao menos acabasse e eu pudesse ter de novo minha mansidão. José nunca mais viera brincar comigo. Será que àquela noite Tia Branca viria passar a ceia conosco? Diante de tal idéia eu já animara meu corpinho magro de menina grande. Pensar que teria meu primo junto a mim, dividindo a alegria na claridade luminosa das bolas coloridas, o peso macio da noite que se alongava. Nós, na penumbra do silêncio que indicava o enigma. Quem trouxera os presentes? As respostas que vinham oblíquas, inesperadas, o murmúrio de certa agonia que nos fazia transpirar. O suor escorria da minha mão quando ela estava colada à de José. O seu sorriso branco era o meu verdadeiro mistério, feito de guirlandas e sonho. Na imensidão do sítio, enquanto a festa era ainda expectativa, o diminuto olhar de José era o bastante para me enevoar. Ele viria? Talvez. O doce da manga sob a sombra do mangueirão era bom no espiar da tarde que espreguiçava. Era como brincar de esconde-esconde – no meio do mato cerrado, o sol batendo forte na têmpora, eu e José a nos procurar, a pedra do estilingue atingindo em cheio da cabeça torta da lagartixa. Nossas pernas dando voltas e voltas ao redor da casa grande do sítio, a respiração transpassada de calor, José gargalhando alto em torno do chiqueiro e das cabras. Eu me escondia no alto da velha ameixeira, os galhos estalando surdos, enquanto José, às vezes esquecendo a brincadeira, procurava, assobiando, o canto da andorinha. Arisco, ia e voltava, esgueirando-se por entre os arbustos espinhentos, os olhos fixos na presa que pousava na cerca devagarinho. Eu o via, já no chão, espalmar-se no terreno quente, o elástico esticando rumo ao passarinho. Errara. Corri ao seu encontro, sorriso solto, e ele olhando para mim, zangado e assustado. Seu olhar espelhava a quentura da manhã que subia, a face vermelha retinindo entre as folhas. O meu coração palpitava rouco, correndo em direção ao mangueirão. Escondida atrás da árvore, sentia seus braços envolverem seu tronco até me tocarem. Virando-me ligeira, descobri sua face muito próxima à minha, o ritmo aguerrido do peito fazendo coro ao chiado do matagal ao redor. Ele, olhar e rosto muito sérios, fechou-se em silêncio à medida que me cosia ao tronco do mangueirão. Frente a mim, encarou-me, homem enjaulado na couraça macia do peito jovem, nossos lábios quase a se tocarem... Ao longe, o grito de Tia Branca na porta da casa. Afastei-me, acuada, desabando no chão entre uma raiz e outra, os passos de José estalando no caminho da mãe. Passei as mãos na testa úmida, os cabelos desalinhados, a face hirta. Estava num estado de torpor, incapaz de suster o peso do corpo, quase desmaiada sobre a terra quente. O resto da manhã passei ali, sonhando, espiando o sol clarear mais e mais até atingir o cume do céu, fervendo o cercado e o quintal. Então, a voz macia de Francisca chamando para o almoço. Como estava sem fome, tranquei-me no quarto, Vó Maria ralhando no corredor, e fiquei a ruminar o olhar de José junto do meu, a descobrir o que se passara em mim a ponto de entontecer. Assim, deitada na cambraia do lençol, passei a tarde inteira pensado, a cabeça dando voltas. Desde aquele dia, nunca mais havia visto José. A sucessão do dias só fez aquietar no coração a surpresa de seu olhar, vaporizada estava sua lembrança nos meus sonhos e pensamento. Crescia mais, sentia no meu corpo uma nova seiva de vida, uma rara vontade de pertencer mais a mais ao mundo, os vinco de menina dando lugar ao broto de mulher. Meu mundo, povoado de pássaros, cantigas e ventos, passava despercebido na vastidão de fora, os dias compridos seguidos de dias mais cumpridos ainda, o céu afastando para alargar-se mais na moldura de cima, o sol aqui e acolá dando trégua para as chuvas. Vó Maria sempre teimou a que todos os filhos e netos passassem com ela o dia de Natal. Apenas Tia Branca vinha, muito apegada à mãe que era, e o resto dizia não suportar a vida do sertão. Quase não vinham mesmo, apenas uma ou outra vez para dar satisfação ao coração da velha. Ela não insistia, embora ficasse casmurra quase todo o tempo, ansiosa a ver se ao menos mais algum dos filhos viria. Por conta disso, nossa ceia de Natal era farta e serena, a comida boa dando para sobrar, a conversa doce entrando na madrugada friorenta, quieta e sombria. Eu ficava ansiosa por ver os presentes que Tia Branca trazia, os embrulhos muito bem amarrados em grossos laços de fita esparramados perto do pinheirinho. Tia Augusta fazia questão de seus frascos de lavanda, todos os anos pedia um ou dois para ir à missa. Francisca tirava o xale e o lenço da cabeça e vestia seu vestido de festa recendendo a mofo, as pontas do tecido amareladas de tanto guardado. Vó Maria, que não tirava o luto do meu avô nem por muita promessa, enfeitava-se um pouco a fim de não chocar muito com seu negror. Suarentas, pouco a pouco iam se aquietando com o avançado da hora, o sítio todo emplumado de enfeites, as luzes piscarolando na varanda e nos frontões das janelas. À notinha, o carro de Tia Branca estacionou rasteiro no breu da vereda que dava pra porta do sítio. Francisca já esquentara o forno para o peru, Vó Maria e Tia Augusta se enfeitando nos quartos e eu, preguiçosa, em um vestidinho de cambraia azul-rei, lendo um romance qualquer na borda da porta que dava para o curral. Fazia uma noite especialmente fria e ventilada, os galhos do mangueirão trêmulos na copa ampla, e as portas da casa batendo violentas nas paredes. Ao sinal de Tia Branca no corredor, corri aos seus fracos, um perfume doce e suave no seu pescoço. Atrás de si, um grande volume enfeitado, seu sorriso branco iluminando a fraca luz do cômodo. A seu lado, José também sorria, mais alto, mais forte, uns olhos infantis me encarando subitamente. À sua visão, abracei-lhe fortemente, seu corpo colando-se a mim, e estremeci afobada. Ele percebeu e corou um instante, os olhos vacilantes em torno da mesa toda arrumada. Vó Maria soltou uma gargalhada solta, seus gritos ribombando no interior da casa. Logo apareceu Francisca com os copos de refresco e Tia Augusta com seus quitutes: “Esses aqui são uma receita que peguei ontem, viu?”. O vento aumentara intensamente, os galhos das árvores salpicando de folhas a varanda e a sala e as frutas caindo pesadamente no chão. As cabras se impacientaram e Francisca foi ter no quintal, atarantada. De soslaio, olhei de novo para José, que não descuidara de mim um só instante. Meti-me a abrir meu presente, mas as mãos tremiam e traiam meu alumbramento: eu via o corpo dele tomar forma, agigantar-se, fazendo-lhe homem, e sentia que uma terna doçura me empapava a garganta. Desde aquela outra vez, seu lábio quase tocando o meu, meu pensamento como que lhe gravara o segredo: seu pulsar no peito era tão insistente quanto o meu e eu sentira seu coração avolumar-se a cada respiração, como os sulcos da terra a tremer. Nunca soubera o gostar de ninguém, meu mundo pouco povoado e distante da brancura de José e de seu temperamento insolente e bravo. Saber do seu querer era uma janela se abrindo vagarosamente no sopro do meu vaguear: um mistério insinuante, preenchido de silêncios abruptos como pancadas, nossos olhares de crianças grandes traduzindo o indecifrável. Ganhara uma boneca, dessas grandes e louras, vestida de princesas e carregada de peças de toucador. Meu coração, por um momento congelado, riu por dentro. Mais uma boneca loura de traços finos guardada no fundo do guarda-roupa, inútil e bela. Desde há muito já não brincava, todas elas enfurnadas entre as minhas roupas, enjauladas e aprumadas, esperando que eu as resgatasse de seu limbo. Esperavam e se escondiam no fundo do meu sonho raro e bom de infância, seus últimos relances de vida aprisionando-se no vácuo das lembranças. Talvez para um nunca mais, todas aquelas roupas e brinquedos, toda aquela toada nova e já antiga esvaziando-se de sentido na forma com que meu corpo se amiudava ao abrigar o meu coração. Talvez Tia Branca não imaginasse, mas dentro de mim uma chama ardia já há muito tempo, feita de faíscas agudas como facas em ponto de corte, amoladas e ásperas, rasgando o véu puído do que eu fora e deixando entrever o que seria, cosendo em mim um tecido novo de fantasia, os olhos numa quentura de amor. Um coração e uma alma que davam sobressaltos: sim, nem de leve a manhã morna pousaria, mas antes uma tarde quente como uma brasa, torrando o verde das árvores e deixando-as quase cinza. Entre suas copas, o olhar de José cosido ao meu como um ímã. Os copos de refresco e os pratinhos de doces se avolumaram sobre a mesa e Vó Maria decidiu-se pela ceia, lá pelas tantas. Como fosse quase meia-noite, reunimo-nos em torno do presépio para rezar um pai-nosso, a tosse da Tia Augusta indo e voltando no decorrer da reza. Ao final, Vó Maria ainda disse algumas orações e nos abraçamos mutuamente. Fora, o ruído surdo dos galhos a balançar, o silêncio oco da mata a zumbir entre as cabras e o chiqueiro. Rápido, a mesa da ceia foi posta e comemos, Tia Branca, entusiasmada, contando as notícias da cidade, ecos distantes de vidas que me eram inúteis. José comia taciturno, os olhos vagueando e seguindo o zunzum do terraço, ocupado com a vista cega do mato espraiado, sem observar as gargalhadas de Tia Augusta e com a fala alta de Vó Maria. Terminada a ceia, foram todas elas conversar na varanda, espreguiçadas nas redes e cadeiras de balanço. Como ninguém aturdisse, fui sentar-me junto ao mangueirão, a espiar o luzidio da lua encravada no céu de um azul-escuro brilhante. Longe, o riso solto e as luzes do sítio embaciadas, pesado e luminoso como uma nave pousada no meio do nada, grande e diminuído pelas sendas do negrume que o cercava. Encantada com o lusco-fusco da madrugada, nem percebi os passos de José que invadiam a solidão, medidos e pausados como os de uma assombração. Olhou para mim, a face recortada de escuridão e iluminada por um breve sorriso, e sentou-se ao meu lado. Meu peito, arfante, aninhou-se entre duas grossas raízes a fim de espaço a seu assento. Ficamos, assim, os dois a espiar as luzes de cima, calados e absortos na nossa própria contemplação. Sua respiração, ao lado da minha, parecia compassada à minha expectativa, desejosa de meu desejo como uma andorinha com sede. Estava imobilizada no desespero da minha covardia, humilhada diante da ousadia de José, que teimara em expor, de maneira tão gritante, o pulso que irradiava de si. Temia o pavor do breu que se assenhoreava de mim, daquele lugar, daquela lua redonda e cristalina no céu. Por fim, José pegou em minha mão. Sim, mãos de um homem que já não tinha medo tomaram as minhas, quase as de uma mulher. Por um instante, confusa, imaginei as minhas bonecas a gargalharem no fundo do abismo, entre roupas e desejos insepultos. O rastro da andorinha que fugira de José, medrosa, e que viera aconchegar-se no vazio de um coração quebrantado. Perdera-me na sanha de ganhar a vastidão do mundo, espalhado no campo fértil daquele sertão árido, o quente do sol me tomando as mãos, os pés e a alma. José tocara em mim e descobrira o meu mistério de amor. Amaria talvez, convencida de que também eu estaria no fundo de um abismo a esperar que me resgatassem de mim mesma e do meu martírio. Talvez, quando o sol já não resultasse tão quente... ...e José, sem pejo, a mão suada presa na minha, a outra recostando a minha cabeça no madeiro da árvore, sua respiração tomando o ar da minha, ânsia tão ampla, seu rosto descobrindo o meu na escuridão do mundo: um beijo, quase roubado e intensamente desejado, a caixa do peito reverberando alto na secura da terra. Eu estava tomada por ele, sem um chão a me resguardar, inerte e entregue a ele, ou talvez a mim mesma. Nem se indagassem eu saberia quem era aquela nos braços de José, tão exposta estava ao calor ardente do meu peito. Então, como quem morre um pouco, respirei meu sopro de vida. José recostou-se ao mangueirão também e ficou, o peito já menos alarmado, a espiar as estrelas cada vez mais brilhantes. Eu, acordada, perplexa, sonhando, medrosa: o mundo fora meu por um instante e eu amava um homem. Sim, eu, uma mulher quase feita, amando um homem, no florescer de si. A lua, porém, era só segredo em sua forma redonda, luminosa como um farol a guardar o meu mistério. A mão de José ainda na minha, um sorriso a brilhar mais alto na escuridão pesada da noite de Natal. Longe, o riso de Vó Maria chamando a cantiga dos grilos e o zumbido surdo do mato. O sítio envolvido na cinza ardente da madrugada. 18Mar2006 - 13:16 | ( 1 ) comentários “O essencial é invisível aos olhos” (O PEQUENO PRÍNCIPE, de Saint-Exupéry) O carro alinhou-se no fio da estrada até atingir a curva fechada, passando macio pelo asfalto seco. Ao longe, a baía se estendia como um tapete azul até à linha úmida do horizonte, as praias desertas e o bosque imenso fazendo margem aos penhascos. Era quase manhã e o frio dava lugar a uma suave brisa ligeira, encharcada de odor marinho. O homem ao volante avistou a água do mar e deu um sobressalto. Como acordasse de um sonho, assustou-se de ver o imenso oceano beijar a paisagem e nem se deu conta da distância que percorrera. Estava como que embriagado, a saliva quente na boca e os olhos recém-embaçados. No banco de trás, sua filha dormia tranqüilamente, o vento atingindo em cheio seus longos cabelos louros, a face sardenta colada ao tecido do assento e a mochila rosa descaída no tapete. Desceu a estrada até atingir o nível da praia, recortada pelas imensas rochas, e ficou à margem da praia, hipnotizado pela areia branca que se insurgia na estrada. Em sua mente, um imenso vácuo tomava o espaço dos pensamentos desalinhados, a dúvida persistindo no bojo de suas impressões. Ninguém na pista nem na praia, eles pareciam sós no mundo alongado pela força do céu que se descortinava. Tinha plantão no hospital e horários no consultório, pacientes com hora marcada, aulas na faculdade de medicina: o médico olhava debilmente no relógio os ponteiros marcarem seis da manhã. E a aula da filha, o balé, a festa com as amiguinhas de colégio... Olhou para trás e a viu tão enfurnada nos sonhos que receou acorda-la, ainda vestida de uniforme. Quando todo o processo se iniciara e como chegara até ali não sabia, a memória não vacilava um relance ou uma lembrança qualquer. Foi freando o carro lentamente até entrar por uma pequena vereda entre as árvores do bosque que dava para a praia mais adiante, o azul do mar insistentemente reluzindo ao final da trilha. Quando deu por si, o carro estava estacionado na areia da praia, ele ironicamente vestido de jaleco e sua filha ressonando alto atrás de si. Minutos depois e ele ainda sentado, as mãos no volante e os olhos fixos na maciez da vaga lambendo a areia lentamente. Uma ânsia subiu-lhe na garganta procurando afogá-lo em apreensões, mas seu pensamento resoluto teimava na sua ousadia. Estar ali era como estar em lugar nenhum, tão improvável era a sucessão dos acontecimentos como irreal a paisagem que os circundava. Pensou em sair do carro, tirar os sapatos, pisar a areia e a água salgada, desafiar-se em sua ignorância até que aquele instante lhe soprasse o silêncio do abismo. Era como um ponto submerso no oceano, sem chegadas e saídas, e imperioso era para ele ter o controle do impossível. Perder-se era morrer, mas o mar teimava em soprar-lhe nos pulmões o hálito bom da existência, tão majestoso na calmaria que se insinuava naquele início de manhã. E o que dizer à filha? E o que ela lhe diria? Saberia ela de alguma coisa? Quando deu por si, estava já na areia, sem relógios ou jalecos, a barra da calça dobrada a fim de sentir mais o frio do chão. Os braços enlaçando as pernas cruzadas e o olhar vagueando pelas ondas a contorcer-se mais à frente, como se brincassem entre si. Estava seduzido pelo mistério, mesmo porque ele não saberia como retroceder, nem muito menos avançar. Estático, bastaria apenas observar e, quem sabe, instantaneamente fixar-se ao instante como a moldura de um quadro. Sua apreensão anuviava-se lentamente ao sabor do espaço amplo que a aprisionava. Respirava bem e a imensidão invadia seu corpo como um peso suave e quente, tomando-lhe o pensamento e o sopro de vida. Sozinho, percebia que o mundo cabia dentro de si, alojado nos átrios de um coração ardente de saudade. O vácuo desaparecia e ele era feliz no instante presente, vivenciando o corpo presente e as coisas presentes, feitas de uma concretude virtuosa que lhe dava a segurança de uma vida sendo construída de azul. As gaivotas planavam. Insistia ele na memória que ardia, mas a única resposta compreensível era um ponto cego no fundo de um sonho. A incerteza dragava-lhe a perspectiva de libertar-se e ele se descobriu emaranhado numa armadilha que possivelmente armara a si mesmo, e que desconhecia. O carro resultava inócuo, a filha estava ainda dormindo, o sol frio da aurora branca a espalmar-se infinitamente: quem daria por eles agora? Não sabia o motivo, mas queria respirar cada vez mais profundamente, como se o fôlego lhe escapulisse. Sim, respirar, para que ele pudesse guardar o máximo daquele instante e pudesse repassá-lo depois, e enxergar a sua verdadeira essência. Quando acordasse, aí haveria de precisar dessa calma intranqüila, desse vento que lhe aumentava o pulso. As gaivotas iam e vinham, enérgicas, aqui e ali amparadas pela finíssima luz da manhã. Desmesuradamente, rumavam ao nada e sabiam perfeitamente aonde ir, guiadas por uma intuição silenciosa. - Pai? – a voz parecia-lhe vir do profundo do abismo. Virou-se e viu a filha, descalça, um meio sorriso de surpresa, os olhos inchados de sono e os cabelos cor-de-sol esparramados no ar, caminhando vacilante pela areia da praia. Tomada da euforia de estar ali, enfurnada no mesmo sonho que o pai, a menina fazia-se flutuar com o vento lhe soprando sussurros imensos, como se carregasse um búzio ao ouvido. - Por que estamos aqui? – perguntou, um pouco atônita. O pai, já acostumado com a falta de respostas, silencioso e grave como um monge, respondeu com voz sumida: - Parece um sonho, uma surpresa... Não me lembro bem... - Eu lembro que estávamos a caminho da escola, mas já faz tanto tempo... Eu dormi muito? Estou tão exausta! – a menina sentou-se ao lado do pai, de pernas cruzadas também enlaçadas. - Não sei – tornou o pai, triste por não saber o que lhe fizera enlouquecer. Embora temesse o pior, aceitava o desafio: era preciso ir até ao fundo do oceano e contemplar o tesouro escondido. - O senhor disse qualquer coisa sobre ir embora, fugir, sei lá! Eu não queria ter aulas, estava com muito sono, cansada de tudo... Depois disso, não sei... A filha meditava sobre as lembranças e ele ia desfolhando as pistas que precisava. O carro, o abismo, o sonho: tudo se encaminhava numa engrenagem mágica, movida por setas escondidas. Quem poderia supor que um médico de sua categoria, o melhor de sua classe, ganhador de tantas láureas, estaria agora debilmente fantasiando sobre sua própria inocência. Seus pacientes que esperassem! Nada o imobilizaria a não ser a descoberta de si mesmo nas pegadas daquela estrada que apontava para o mar. O pior era fazer a filha descortinar a própria memória... Sentiu uma vontade louca de abraçá-la e beijá-la, tê-la na concha das mãos, miúda como sempre fora, mas... A filha repousava na areia, como um totem. Nenhuma palavra, nenhum murmúrio por vários minutos, a vista aturdida das ondas imensas. Se ele fizesse mais uma pergunta, ela teria a certeza de sua fraqueza e de sua maldade. Mas porque não tomava sua filha de assalto? Ela era uma estranha, enfim. Engraçado é que sua mente não retrocedia ao momento imediatamente anterior ao da loucura daquela viagem. Sabia apenas que a seqüestrara de sua aula e trouxera para uma praia deserta. Antes disso, o que sucedera? Não lhe ocorria nada, nenhuma festa de aniversário ou brincadeiras no parque, nenhum pôr-do-sol e nenhum algodão-doce. Nada. Uma perfeita estranha, isso sim. O olhar ainda perdido no horizonte azul. (CONTINUA NO POST ABAIXO) 22Jan2006 - 12:30 | ( 0 ) comentários Qual a última vez em que estiveram juntos? Quando tivera tempo de brincar com ela? Estaria com notas baixas no boletim? Estaria satisfeita dando suas piruetas na conservadora escola de balé? Enfiado em pensamentos soturnos, não tivera ele tempo de retirar a membrana áspera da indiferença: sua realidade ardia de medo. Por que ela lhe era estranha? Indagações iam e vinham como ao sabor de uma maré violenta, doentia. Lembrava-lhe um pouco a mãe, a face e os cabelos também brilhantes. Não tanto no temperamento, mas nas mãos e nos pés que tocavam o mundo como se dançassem. Como se ouvissem música. Nisso, elas eram iguais. A filha lhe dava um cheiro agridoce de saudade, como se camuflasse em seu corpo de menina toda uma enchente de lembranças boas. Mas nem isso lhe retirava o nó cego do coração. - Mas porque estamos aqui? – a menina insistiu, seca. O pai sentiu o peito lhe faltar, o corpo pesado na areia fofa. Por quê? Ora, nada sabia de si e nada sabia do outros. Sabia pôr fim às dores dos outros, vivia a vida calculadamente cronometrada nos ponteiros do relógio de pulso, sabia que a sua sina era apenas trabalhar e ter como seu apêndice uma filha cuja vida lhe era desconhecida. Fora isso, nada. Ou melhor, a secura de um vácuo que já lhe tomava toda a respiração. A brisa do mar já não era o bastante e o mundo tornara-se grande demais para os átrios de seu coração imenso de saudade... Mas, saudades de quê? Não sabia. Era agora um estranho ao lado de outra estranha em um mundo esquisito e tenebroso, como numa estória infantil... Olhou para os cabelos cor-de-sol da filha e algo como um anjo de vidro rebentou dentro de seu coração: “Mas você tem cabelos cor-de-ouro. Pense como vai ser maravilhoso depois que você me cativar!” A senha estava ali a seu lado todo o tempo. Algo de inesperado e misterioso agigantou-se no peito daquele médico, sempre tão matemático e metódico nas suas resoluções, e ele descobriu o segredo da filha... Lembrou-se de um fim de tarde: de um tempo que parecia encharcado de cinza; de quando ainda o mundo era feito de papel celofane e cartolina; de como a sua filha parecia mais miúda quando pequenininha; do presente que lhe dera; do menino de cabelos cor-de-ouro; da lição da raposa; do riso maroto da filha; do sonho; do abismo; de si mesmo e de sua pequena criança... - Eu te trouxe até aqui, filha! – disse, enquanto a verdade vinha-lhe à garganta – Eu te carreguei até aqui para fugirmos de tudo. - Por quê? – a pergunta fatal, os olhos azuis da filha luzindo em sua direção. - Por você. Por mim. Por nós. Acho que precisávamos disto. Acho que sempre precisamos. - Mas, e todo o resto? O senhor não tinha outras coisas a fazer? O senhor sempre tem... – a filha insistia. - Nada mais vale a pena. “O trigo de nada me adianta...” – interveio docemente o pai. - O quê? Trigo? Que trigo? - Você não se lembra daquele livro que eu lhe dei quando você era mais novinha. Aquele do principezinho de cabelos cor-de-ouro. Ele morava em uma estrela e tinha vindo à Terra em busca de amigos, de pessoas a quem amar. Depois de ter conhecido planetas e mais planetas, a bordo de pássaros que emigravam, ele veio ter por estas paragens, atrás de seu sonho. Aqui ele conheceu um aviador, um homem muito especial... - Não... Quer dizer, eu lembro um pouco... Mas por que lembrar deste livro agora? O que ele tem de tão importante? - E da raposa, você se lembra? – cortou novamente o pai – Uma raposa muito esperta! - Não sei bem: havia um deserto, uma rosa... – a menina observava o tapete de areia no chão. - Isso! Um deserto igual a este em que estamos, no qual vivemos inteiramente imersos. – o rosto do médico espairecia, prostrado sobre a calmaria do azul. - Não havia uma raposa que falava? Essa raposa era muito importante, não era? - Sim, e ela tinha um segredo... O sol estava já quente no céu. Teriam ido embora as gaivotas? E o mar, teria ele finalmente acalmado? Por que o silêncio era tão eloqüente na ardência do tempo? E por que estávamos todos sós? A filha recostou-se no ombro do pai. Mais um pouco e ele a envolveu com os braços, suas mãos desejosas das mãos da filha. Ela sorriu, seus dentes brancos a adornar uma face extasiada. Seu pai descobrira-lhe a senha secreta, um segredo igual ao da raposa. Era um instante que duraria mil tempos, a praia era agora um respeitoso e claro enigma a ser desvendado, a ser decifrado em suas imprecisões. - Tinha um verbo... Um verbo que a raposa dizia... O senhor sabe qual é? – a menina perguntou. O pai sentiu como se uma nesga de sonho tivesse se despregado. O que bastaria para que os átrios de seu coração ardessem de febre? Um amor tão branco e puro preenchia o vácuo imenso do momento presente, das coisas presentes, e ele se sentia responsável por aquele terno mistério. “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas...” - Pai, o senhor tá chorando? O que foi? - Papai está bem, filha. Não é nada, é só alegria por estar aqui com você... Olhou nos olhos da filha e sentiu que a vaga do mar em torno de si não era tão imantada quanto aquele pequeno desejo de amor. O sol batia em cheio em seu rosto, as mãos de sua filha em torno de seu pescoço, a brisa insistente e translúcida. Por que amar era tão misterioso e tão simples? Assim como quem prega uma peça, era preciso que estivéssemos dentro de um carro para que o mundo tivesse nos expelido para fora, para além dos abismos e dos horários, para além dos lençóis que abrigavam nossas almas, para além... Era preciso que o mundo tivesse lugares com aquele, palmilhado de solidão e silêncio, para que minha filha enxugasse as lágrimas que vertia, para que eu a soubesse, para que eu amasse. Era preciso que houvesse um choque, um momento de extremo amor, para que a náusea desse lugar ao nascer do sol. Por quê? Esta seria a pergunta fatal, se não houvesse nada além de gaivotas a nadarem no céu. Não fosse isso, e ainda estaria atendendo a pacientes, consultando prognósticos e prontuários, enfrentando plantões intermináveis. O cheiro de éter, a modorra, sua funda melancolia. - Por que tudo isso? Eu não entendo bem... – sua filha era agora um bálsamo. - Não sei, filha. Não sei. “Só se vê bem com o coração”. Lembrei-me deste livro ao ver você, seus cabelos louros soltos no vento. Iguais aos campos de trigo! Os olhos da menina piscaram: - Cativar... Acho que era “cativar” o verbo que a raposa dizia ao principezinho de cabelos cor-de-ouro. - Cabelos cor-de-ouro assim como os seus... – seu pai parecia não ouví-la. - Os trigos que não eram mais inúteis. Não era esse o motivo? Que os campos de trigo não fossem mais inúteis? Diz, pai, para que eu possa lembrar... - Você já lembrou... - Cativa-me! – ela pediu ao pai, para não deixar de se lembrar. A menina sorriu, o uniforme encharcado de areia, a face sardenta. Gaivotas voltaram a voar em torno deles, a vaga era agora um matraquear surdo e constante. “Já está quase uma mocinha”, pensou, com um sopro de vida no coração. E o que haveria de ser depois? E se acordássemos? E se o mundo voltasse a ser tão violento quanto antes? Saberia voltar a esta praia e retornar ao antigo e novo mistério da raposa? O momento presente e as coisas presentes tornavam-se, pouco a pouco, a moldura de uma nova existência, marcada pelo encontro no deserto. - Vamos embora, filha? - Já? Não íamos ficar aqui o dia inteiro? - E as suas aulas, mocinha? Seu pai tem horários... – tentou imprimir às suas palavras o mesmo tom grave de sempre, mas sabia que seu olhar traduzia um ar humorístico, feliz. - Estou cansada dessas aulas, pai. E o senhor precisa de um lugar assim. Anda tão preocupado, tão nervoso, quase não tem tempo para nada... Não podemos ficar mais um pouco...? - Não, filha, temos de ir. Vou precisar de uma criatividade enorme para inventar uma desculpa lá no hospital... Ah, aquele hospital! - O senhor não tinha um plantão? Eu acho que o senhor tinha um plantão. - Isso é pretérito, passado, já se foi... Mas, em todo o caso, vamos! Vamos ver o que se arranja lá em casa. - E por falar em passado, onde está aquele livro do principezinho? - Não sei, já faz um bom tempo... Quando voltaram à estrada, a claridade subia como uma lâmpada acendendo. A filha, contrariando as reclamações soltas do pai, veio no banco da frente, ainda descalça. Tinha os olhos iluminados de uma ânsia diferente, inusitada. O pai desligou o ar-condicionado e abriu as janelas, o vento entrando impetuoso no interior do veículo. Deixando a via que bordejava os penhascos, o carro tomou a auto-estrada ampla e comprida, o tráfego já imenso naquela manhã. O pai sabia agora o caminho de volta. Viu sua filha reclinar-se na poltrona, serena e silenciosa. Já não havia porquês a indagar. O essencial já havia sido descoberto. 22Jan2006 - 12:29 | ( 0 ) comentários Se colhêssemos o verbo amar analisando-o somente gramaticalmente, veríamos que se trata, obviamente, de um verbo transitivo direito. Quem ama, ama alguém ou alguma coisa. É, portanto, verbo que exige um objeto, um motivo, uma causa que lhe dê razão e lhe dê sentido de existência. Não existe sem este complemento, pois, do contrário, estaria fadado à inutilidade. Não somente na frase ou no discurso o verbo amar carece desse algo mais que o justifica Também nas nossas vidas e no nosso coração esta verdade é plena de significado, haja vista que, ao conjugá-lo sem essa razão que lhe dá alicerce, o nosso aprendizado afetivo não existiria. Cristãos zelosos que muitas vezes achamos que somos, somos levados a exercer o nosso amor tendo em vista o objeto essencial da nossa vida: o próprio Cristo ressuscitado, que já na sua cruz havia atestado, sob a sua dor e sofrimento, que era a humanidade pecadora e algemada pela maldade o objeto primordial de Sua paixão. Levando-se em conta essa conclusão, ao colocarmos Cristo como meta de nosso amor, estaríamos selando essa obra que, afinal de contas, é a razão de ser de toda a criação operada por Deus. Seria perfeito e lucraríamos o Céu se atingíssemos esse objetivo. No entanto... Falar de amor, hoje, é uma facilidade sem tamanho. Virou rima pobre de música, discurso barato na azaração dos jovens e desculpa para crimes e barbaridades; enfim, perdeu quase que completamente a excelência dada por Jesus em Sua vida. Depois de milênios quebrando a cabeça ao tentar se abrir em direção aos outros e a Deus, o homem parece ainda infantil ao definir o significado pleno do ato de amar na sua existência. E, como o significado exato lhe escapa pela sua teimosia em não escutar a Deus que mora em si, ele vai chamando de amor qualquer coisa que se assemelhe a este sentimento, segundo seu juízo ferido e perdido. É interessante como, na boca de Cristo, a palavra amor ganha um significado intenso e simples. Ele ordena: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei! Ninguém tem mais amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sereis meus amigos se fizerdes o que vos mando. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros!” (Jo 14, 12-17). Nota-se que é uma exortação, uma necessidade, um pressuposto lógico para se obter a tão desejada salvação. Não há caminhos miraculosos ou misteriosos para se chegar à Graça – o amor consegue ser, ao mesmo tempo, causa e conseqüência, ação e reação, contração e distensão. Para o homem, porém, o amor é o pior dos caminhos, a mais falha, decadente e sem-graça das suas aspirações, porque ele não busca atar esse elo com Deus (e, é claro, consigo mesmo). Ele busca ater-se ao seu egoísmo, à sua humanidade, tentando assim vivenciar uma mudança de vida a partir de suas próprias forças, falhas e poucas. Amar torna-se um fardo, um peso, porque é verbo que pede como objeto, além de próprio amante, o amado, que é sua razão de ser... Segundo Dom Amaury Castanho, “(...) é fácil perceber, no conjunto da mensagem do Nazareno, que o Reino de Deus se caracteriza pelo amor e a justiça, a pobreza e a paz, a graça divina, a verdade e a simplicidade”. O amor é a substância do Céu. Aliás, o amor é a essência de Deus, e ele torna-se “preso” à ela quando nos elege como objeto de seu amor, posto que ele só sabe amar, na infinitude de si. Essa “prisão” é, para nós, o verdadeiro significado da liberdade, mas não a buscamos porque nos prendemos ao pecado que há em nós, trazido como herança pela desobediência primeira da humanidade, que quebrou, no início da criação, esse elo com Deus, que é aliança de amor e a própria história da salvação de todos nós. O ato de amor deve concluir-se com total perfeição, a fim de conseguirmos a eternidade. Exige-se, pois, um sujeito, um verbo e um seu objeto para que, unidos entre si, perfaçam o sentido da caridade que Cristo legou Os santos souberam escolher o objeto de seu amor e, por isso, gozam do Céu. Entre eles, descata-se sua Rainha, Maria, Mãe Santíssima de Jesus, que fez do seu “sim” sinal claro de sua opção pelo amor maduro e desmedido, impulsionado pela grandeza de Deus que abraça sua pequenez (cf. Lc 1, 38). Ninguém amou como ela o Verbo Amor de Deus, guardando-o em seu seio e conduzindo-o com sua maternal afeição. Ela soube descobrir o segredo e o mistério de amar, fazendo a simples escolha pelo amor, sem grandes ambições e sem se apegar a si mesma e à sua humanidade. De Maria, aprendemos o amar que é ação de Cristo, substância e essência de Deus. Amar na coragem e na ousadia que quem já se sabe objeto especial desse Amor... 29Nov2005 - 14:13 | ( 0 ) comentários
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