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As Cidades Invisíveis

 

Ítalo Calvino

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verborragicos@yahoo.com.br

        

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Uma reflexão a respeito do matrimônio

 

           

            Preâmbulo. Depois de fazer uma legítima devassa, na minha mente, sobre o ocaso da instituição matrimonial na sociedade brasileira, pude perceber que ele está associado a determinados fatores de ordem moral, ou seja, às prescrições sociais relacionadas ao comportamento de homens e mulheres. Nas linhas que seguem, pretendo discutir sinteticamente alguns desses problemas, apontando possíveis maneiras de solucioná-los.

            I – A questão dos papéis sociais. Desde cedo, tem-se uma clara noção do que socialmente compete aos gêneros masculino e feminino. Os meninos aprendem que, quando adultos, devem estar à frente da família – seria humilhante, “coisa de gigolô”, ser sustentado por uma mulher – e, contrariando a monogamia cristã, são orientados a ter casos extraconjugais, pois todo “macho” digno do nome é “predador de garotas”.[1] As meninas, mesmo com as conquistas advindas do movimento feminista, continuam a ser educadas tendo como foco o lar, a manutenção dos laços familiares, o bem-estar dos filhos, a “fidelidade” em relação ao esposo – o trabalho extradomiciliar feminino, apesar de ter trazido muitos benefícios à mulher, tornando-a mais independente e dona de si, encerrou-a, paradoxalmente, numa dupla prisão: os grilhões do lar e a exploração capitalista, o que elucida o aumento dos casos de depressão entre a população feminina. Além disso, ainda se tem, por parte das mulheres, em decorrência da própria educação que lhes é reservada, uma concepção assaz idealizada de casamento: muitas projetam o marido – com a anuência inicial deste, é bom lembrar – à guisa de filho mais velho, tratando-o como um ser dependente e mimado. Essa é a razão pela qual boa parte dos matrimônios chega ao fim, já que os homens, depois de algum tempo, se insurgem contra esse modelo que lhes é impingido “de fora” e, por seu turno, as mulheres veem-se frustradas por eles não corresponderem às suas expectativas prévias. 

            II – Moral cristã e ascensão da burguesia. O padre diz: “Até que a morte os separe”. Essa é a mola mestra do casamento cristão – os cônjuges devem se amar, venha o que vier, doa a quem doer, pelo resto de suas vidas; por conseguinte, os pecados da carne, entre os quais, no presente contexto, destaca-se a famigerada “traição”, têm que ser mantidos à distância. Esse é o típico discurso burguês, impregnado de um palavrório cristão, que se estende às demais classes sociais, visto que, desde fins do século XVIII, a burguesia vem moldando o mundo à sua imagem e semelhança. Como já é sabido, entretanto, há uma significativa distância entre o que as pessoas dizem e aquilo que elas fazem, e essa sentença adquire contornos patológicos quando se trata da classe burguesa: por exemplo, na Inglaterra do século XIX, os mesmos burgueses puritanos que, em público, execravam a infidelidade, frequentavam, à socapa, os lupanares e/ou desfrutavam da volúpia proporcionada por suas amantes. Havia, portanto, duas morais: uma pública, “certinha”, e outra privada, a qual, por motivos óbvios, não poderia em hipótese alguma ser revelada – qualquer similaridade com a postura dos nossos políticos não é mera coincidência. 

            III – O significado do casamento civil. No Brasil, a primeira Constituição republicana (1891) determinou a separação entre o Estado e a Igreja Católica.[2] Com isso, o casamento, antes única e exclusivamente de competência religiosa, passou a contar com registro civil. Em outras palavras, Deus perdeu o monopólio sobre a legitimação das uniões matrimoniais; a Ele juntou-se o aparelho jurídico estatal, que, a partir de então, concebeu o casamento como um contrato entre as duas partes interessadas – o homem e a mulher. Sem querer entrar em detalhes acerca das mudanças constitucionais quanto à configuração do casamento civil – tal tarefa seria objeto de estudo de um jurisconsulto –, hoje em dia essa instituição detém um rótulo de desprestígio perante a sociedade brasileira; para averiguar a referida informação, basta observar as assombrosas estatísticas referentes ao divórcio nos últimos anos. A moral popular, outrossim, vem a reforçar essa argumentação – como se diz por aí, nos botecos da vida: “Casou, cagou”.    

            Destarte, o que é o casamento civil senão outra cria burguesa, típica do desenvolvimento das relações de produção capitalistas? Cabe, aqui, uma explicação mais pormenorizada. Entre patrão e empregado, no âmbito do sistema assalariado capitalista, as relações são mediadas por um contrato, o qual, em tese, garante a igualdade entre ambas as partes. Isso, de fato, não ocorre, porquanto o capitalista apropria-se do trabalho não pago aos empregados, a mais-valia, em seu próprio benefício, deixando a estes um salário que, na maioria dos casos, mal dá para a subsistência. Algo congênere sucede no que tange ao contrato de casamento, no qual está expressa uma pretensa equidade entre os gêneros, o que vem a encobrir a realidade dos fatos: o vil machismo ainda persistente em nossos dias. Ademais, ambos os contratos – o de casamento e o de trabalho – são fruto da excessiva mercantilização das relações sociais; nas transações comerciais, tudo precisa ser devidamente documentado, arquivado, registrado, e isso se estende aos mais íntimos domínios do nosso quotidiano, os quais acabam sendo reduzidos a essa insossa lei do capital, que quantifica e reifica a quase totalidade dos aspectos humanos.                   

            Problematizando o que já foi dito. Nesta secção, são propostos alguns caminhos que julgo necessário serem percorridos para que os problemas anteriormente apresentados venham a ser superados – ou pelo menos atenuados. Os tópicos outrora lidos (I, II e III) foram, logo a seguir, rebatizados, em virtude das intenções analíticas aqui pretendidas.

            I – Uma concepção mais realista dos papéis sociais. Nos dias de hoje, deve-se pôr em prática os ensinamentos de uma nova cartilha familiar, que ponha à disposição de homens e mulheres outros padrões comportamentais com os quais eles possam identificar-se. O respeito mútuo, tão boçalmente decantado pelos “teóricos” de prontidão, deve sair dos domínios da retórica e permear as relações entre os gêneros. Não obstante o casamento, cada qual continua a ter sua identidade como ser humano, e tal princípio rima com privacidade – a vida do casal não pode anular a existência do homem e da mulher como entidades subjetivas, individuais, que desenvolvem interações sociais por conta própria. Aos cônjuges, eis um conselho: não criem muitas expectativas em relação ao casamento. Apenas o vivam. Tenham os pés no chão quanto à coabitação. Saibam que nada dura para sempre; se não der certo com X, talvez dê certo com Y, e por aí vai. Afinal, não se pode deixar de perseguir a felicidade, objetivo precípuo da existência humana no mundo. Procuremos alguém que nos seja semelhante – essa história de que polos opostos se atraem só funciona mesmo na Física. É por isso que, antes de se casar, as pessoas deveriam conviver algum tempo, sob o mesmo teto, com seus futuros consortes, a modo de estágio probatório; assim, evitar-se-iam muitas cefaleias.              

            II – Reação à bitola cristã e soterramento do engodo burguês. Proselitismo é como preconceito, não faz bem a ninguém. E essa máxima também abarca o campo religioso. A visão cristã de que todo casal tem que viver junto até a morte é absurda, incoerente com a própria natureza humana. O ser humano é dinâmico, está sempre em busca de novas possibilidades, não se contenta com o marasmo da rotina. Os que a ela se curvam, tornam-se meros vegetais, perdem o prazer em viver – são vivos que há muito feneceram. Por isso, não adianta recalcar os sentimentos; é necessário munir-se de uma única moral, cujos ditames básicos sejam a transparência, a sinceridade e o compromisso com a verdade. Ter-se-ia, então, uma visão de mundo antiburguesa, já que inimiga de recalques e embustes, artifícios que, historicamente, tornaram-se insígnias dos burgueses. Viva a emancipação humana!  

            III – Encômio ao fim do casamento civil. Casamento é um estado de espírito. Não há como reduzir o sentimento de se estar casado a um contrato, uma droga de papel sem valor. Aliás, os contratos vieram, sob o prisma histórico, a exercer uma função meramente cosmética: dar aparência bonita a determinados fenômenos que se verificam na sociedade sem tanta beleza, para usar um eufemismo. O exemplo dos trabalhadores – elucidado acima – é aforístico. Os contratos são a prova mais cabal de que até mesmo as relações humanas subordinam-se às vorazes necessidades do mercado. Precisamos de relacionamentos espontâneos, calcados no amor recíproco – e, como já dizia o poetinha, que seja eterno enquanto dure –, e não numa divisão de bens. Um imperativo “pós-moderno”: resgatar a humanidade recalcitrante que ainda existe em nós.

            Epílogo. No momento em que as pessoas desenvolverem outra compreensão do casamento, mais humana, realista e, portanto, franca, transformações sociais desencadear-se-ão, visto que, a partir da mudança nas coisas aparentemente mais triviais, tem-se o prognóstico de grandes revoluções. Pelo menos é nisso que eu acredito.        

 

 

Cosme Ferreira

 

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[1]  É óbvio que há exceções a esse modelo. Nos últimos trinta anos, o comportamento masculino vem sofrendo mudanças devido às próprias conquistas adquiridas pelas mulheres. Porém, em nível de Brasil, o que se observa nos dias de hoje, na maioria das vezes, é um machismo ainda exacerbado, sobretudo quando se trata da região Nordeste.

[2] Isto é, ocorreu a desoficialização da Igreja Católica. Ainda hoje, o Estado brasileiro só reconhece a validade das uniões civis. 

 
 

26Jun2009 - 10:32 | ( 0 )

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V! 

O rio

 


(Baseado em história relatada por Victor Hugo Zamora)

Um rio há adormecido em cada infância,
rio seco ou de enchente, intempestivo
rio que não cresceu
(Zila Mamede)



As nuvens anunciavam chuva, mas isso em nada abalava a felicidade do menino, que, de mão dada ao pai, chegava à margem do rio. Esperava o sol, mas, a verdade era que, estando ao lado do pai em um passeio como aquele, poderia desabar uma tempestade que não teria importância. Talvez seja até mais divertido se chover, pensou. Mas foi o sol quem deu as caras quando, enfim, chegaram à beira do rio.
Aos dez anos de idade, começava a descobrir o mundo. Pelo menos o mundo de verdade, não aquele de contos de fadas em que a mãe o trancafiava na mansão onde moravam. Começava a sentir-se um rapaz. Vontade de usar calças compridas. Uma colega de classe - Amélia – o olhava de forma estranha e pedia para lhe ensinar equações matemáticas...
Mas, nada em sua vida se comparava a um convite do pai para um passeio. Sentia o coração bater mais rápido quando o pai, com a voz grave, coçava barba e bigode e propunha saírem para algum lugar. Corria para o quarto, colocava um calção, uma camiseta branca, as sandálias de couro e se postava na porta de casa, à espera da figura grande e pesada que vestia o casaco, beijava a esposa – sua mãe – e oferecia a mão pesada para iniciarem o passeio.
Amava o pai. Mais que isso, o admirava, tanto pela sua proximidade como pela sua distância. O pai era escritor, militante cultural. Ensinava filosofia em diversas universidades, viajava muito, dando palestras. O filho sofria com os muitos dias de ausência do pai, mas ardia de orgulho em ver os livros com o nome do pai na lombada.
Naquela manhã de domingo, não havia mais distância. Apenas o sol perfeito, moderado, e o rio à frente dos dois. Sacaram do protetor as varas de pescar e após terem fixado os insetos mortos – coletados na véspera – nos anzóis, se posicionaram à beira de uma imensa árvore para esperar os peixes. Conversaram. O pai falava muito durante os passeios. Sobre tudo, sobre o céu e terra, sobre deus (ou a inexistência dele) e sobre os dinossauros (igualmente inexistentes, pelo menos na atualidade).
Contudo, naquela manhã o pai se mostrava mais silencioso, lacônico até. Certo, estava acostumado aos silêncios dele, do seu olhar distante, como se estivesse mentalmente escrevendo um livro ou formulando no espírito uma nova teoria filosófica. Mas, dificilmente o pai mantinha tanto silêncio durante um passeio. Por fim, pescaram um peixe, como sempre, no anzol do pai, como se os peixes adivinhassem... celebraram o feito e, como sempre faziam, o menino media com uma fita métrica, o tamanho do pescado. Vamos colocá-lo no cesto e levá-lo para a mãe?, perguntou o menino. Não. Este, vamos devolvê-lo ao rio, afirmou pesadamente o pai, atirando o peixe à água.
Resolveram mudar de posição e foram para outro lado do rio, de águas mais profundas e quentes. Antes disso, comeram sanduíches de frango e beberam suco de uva. O pai continuava estranhamente silencioso, embora perguntasse de quando em quando sobre seu desempenho na escola e suas leituras.
Uma leve chuva caiu, pintando o rio de borbulhas e atiçando os peixes, que fugiam dos anzóis. Quando a chuva se foi e o sol lentamente voltou, o pai propôs deixarem as varas de pesca à margem e entrar mais um pouco na água morna. Entraram no rio até a altura dos joelhos, e o menino podia sentir os peixes miúdos passando por entre suas pernas. O menino, olhava encantado para o horizonte e o pai, por trás dele, colocou a mão carinhosa e pesada em seu ombro.
- Meu filho, quando eu tinha a sua idade, pensava que o mundo era belo e grande. Sonhava em viajar, em conhecer pessoas e lugares, em aproveitar a vida. Não posso dizer que não fiz nada disso, mas, descobri que o mundo é o contrário do que eu pensava. O mundo é um lugar feio e sujo, meu filho. Sim, não faça esta cara. O mundo é governado por pessoas sem caráter, e são justamente elas que fazem as leis, que julgam as pessoas e que tem o poder de prender e soltar. O mundo é injusto, meu filho, não importa o que você faça, outras pessoas terão mais vantagens que você por relações familiares, de poder ou ainda mais espúrias. Sei que você não está entendendo muito do que digo, filho querido, mas, saiba que é verdade: este mundo não presta. Você pode passar uma vida lendo, obtendo conhecimentos, lutado para ser um humano em essência, mas de que vale isso em um mundo onde o ter vale mais que o ser. As pessoas te julgarão, como me julgam, pelo que tenho e pelo que conquistei de material. Sou um bom professor? Sou um homem inteligente? Talvez, mas só me aceitam em sociedade porque temos uma bela casa, porque temos um carro com motorista. A vida é assim, meu filho... isso porque ainda nem falei das infidelidades, das traições, das culpas, das omissões, dos interesses, das ganâncias, da estupidez, da sede de sangue que marca do gênero humano, da rede de intrigas e mentiras que rege este mundo... sim, meu filho, por que viver em um mundo como este? Que pai que ama o filho pode deixar que ele viva em um mundo como este? Um pai amoroso pode deixar que um filho querido enfrente tanta maldade, tanta dor?... É por esta razão que faço isso, meu filho, por amor demais a você, amor demais...
O menino parou de se debater e sua cabeça pendeu de vez. O pai pegou o corpo do menino no colo e, saindo da água, repousou-o na terra úmida perto de uma árvore. Sabia que tinha feito a coisa certa. Guardou as varas de pesca e olhou para o rio, tristemente.

 

 

Cefas Carvalho

 

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1Jun2009 - 15:46 | ( 1 )

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V!