MyBlog
 

 Senhor da Fantasia

(e suas lamentações)

         
 Respondo pela carcaça "identitário-nomenclativa": André Assunção

Contato: Orkut ou
andreassuncao10@hotmail.com

 Minhas postagens são mensais e    abordam temáticas variadas.

 

Selo de Qualidade para Blogs aprovados  pelo   Senhor  da Fantasia:

 

Visitantes a partir de 14/05/2007:
 

ποιέω (poiésis) – Em Busca da Arte

A humanidade hoje, na segmentação temporal dicotômica chamada contemporaneidade, dialoga com uma miríade de gêneros e sub-gêneros artísticos com estruturas diversas e particulares e que são, frequentemente, catalogados e inventariados dentro de arcabouços específicos e ignorantemente reducionistas. Dessa forma, dada a dimensão deste molde sobre o qual encapsulamos a Arte, faremos um percurso em outra dimensão, mas que se liga rigidamente a essa: o que vem a ser fundamentalmente o “processo” artístico? Inicialmente, dentro desta inquirição, pode-se dizer de cara que o que possibilitou a emergência do “processo” que chamamos de Arte é ahistórico, isto é, não há possibilidade de ser comportado pela classificação temporal da verdade científica – em forma de discursos das autoridades ligadas às ciências e responsáveis por abarcar o passado que calam, para se tornarem então os construtores do seu “ser”. Contudo, antes de alcançar o objetivo final deste texto (onde há só um meio pelo qual ele se multiplica), que é o terreno onde será abordado os problemas na relação de sujeição presente no trabalho de crítica e análise do que é tido como Arte, gostaria de caminhar por uma trilha onde a provocação meditativa será o objetivo motor.

 

A poesia, que hoje tem um significado representativo ligado a uma expressão “literária”, é na verdade, numa reflexão fenomenológica, o próprio processo de pensamento ou (numa tentativa de fugir de representações) de criação. Ora, se refletirmos sobre o momento onde os seres humanos, seja de qual forma isto se manifestou, em algum lugar no devir do movimento contínuo do acontecer – sintetizando: do tempo –  ligou, pela primeira vez, um balbuciar à um objeto que se mostrava (é prudente lembrar que o que se mostra já traz em si o seu mostrar), um objeto inerte (ou não) que emanava existência, poderíamos classificar, sem muito esforço reflexivo, toda essa elaboração envolvida como um processo de criação, ou seja, o ser humano, na alvorada da construção da experiência sígnica, já era um poeta (de fato seria preciso desenvolver mais a noção embrionária do processo criativo humano, e um caminho válido seria discutir os primeiros signos cravados em rocha, onde o homem já demonstrava variações mais complexas nas suas formas de expressão, no entanto, não há espaço aqui para esse tipo de desenvolvimento – ficará para uma ocasião oportuna). E se continuarmos neste caminho esquadrinhativo poderemos tocar levemente o Ser fundamental da Arte; logicamente explicitando que, como diria Adorno na Dialética do esclarecimento, “o conceito é a ferramenta ideal que se encaixa nas coisas pelo lado por onde se pode pegá-las” (para os menos afeitos às idéias de Adorno, isso significa que conceitos nunca podem dar conta plenamente do Ser que tentam indicar, apenas fazem um aceno neste caminho; e ainda há o problema das representações, que frequentemente se distanciam deste Ser), e por isso mesmo há a prudência em dizer que apenas tocaremos essa idéia sobre Arte (criação/poesia/pensamento), talvez, sendo ousado, com as pontas dos dedos.

 

Os procedimentos artísticos, em sua essência, são procedimentos de criação (leia criação aqui dentro do pensamento grego) e, deste modo, são também procedimentos poéticos; isso é fácil de constatar, agora vamos para a questão um tanto mais complexa, para depois desaguarmos na questão hermenêutica relacionada à Arte. O pensamento (poesia) se funda no “mundo” do caos (mais uma vez intervenho para ressaltar que o “caos” aqui não é tido como o desorganizado – os sistemas de representação assim o definem hoje – mas sim, na sua forma ôntica, o aberto à possibilidade), e quando o aprisionamos em uma coerência de signos, um poema por exemplo, delimitamos as possibilidade desse aberto, embora essa idéia de aprisionar as possibilidades seja apenas uma ilusão, pois mesmo esse poema aprisionado será um universo de possibilidades para o leitor, e até para o “criador” (autor), que no instante da criação era outro, mas também era ele mesmo, só que de forma diferente.

 

Existe regra ou técnica para analisar Arte? Uma pergunta desse teor me parece fundada no campo do cartesianismo, que sugere um método lógico estrutural para perquirir tudo. Não vou entrar aqui em uma discussão sobre a importância ou não do cartesianismo, do positivismo e seus consangüíneos para a ciência moderna, me limito a sugerir de forma bem geral, grosso modo, seus malefícios para as reflexões das coisas humanas como se fossem coisas físicas, ou seja, todos os velhos problemas estruturalistas da modernidade, já longinquamente catalogados por mentes soberbas das ciências humanas.

 

E sem mais delongas, veja que o objetivo inicial desta reflexão sobre os procedimentos críticos e analíticos considerando a Arte se torna mais claro agora, afinal, conceituando o olhar para a produção artística na instância do aberto à possibilidade, a partir do plano da hermenêutica fenomenológica, podemos dizer que a Arte deve ser vista dentro de um campo onde a possibilidade mínima de reflexão é o infinito, destarte, ao nos colocarmos diante da manifestação da obra, não há limitações para o mostrar-se dessa obra para os nossos olhos. Muitas vezes, discursos com pouco significado para o autor (escritor; realizador) ou para algum leitor, soa de forma grandiosa para outros, numa multiplicidade rizomática de possibilidades (assim como o contrário também). Por certo existe ainda, infelizmente, a crença na sujeição do objeto artístico – e não só deste – (nessa velha perspectiva maniqueísta e dicotônica “essência X substância” ou “supra-sensível X sensível”) e na elaboração de interpretações que seriam verdades absolutas fundadas numa idéia de competência científica (a autoridade). Por certo, a única regra para uma apreciação profunda e múltipla da Arte é a erudição, pois é aí onde se abre ainda mais o leque de possibilidades hermenêuticas, possibilitando construções simbólicas em um nível coerente com a capacidade humana de cognição. Não é um caminho fácil, mas é o caminho necessário.

 

Essa pequena reflexão sobre Arte se limitou a uma idéia fundamental de Arte, no campo da poética grega, portanto, os rizomas que demonstrariam como a Arte, em suas diversas instâncias, se atrelou à “estruturas” sociais diversas em formas diversas, ou às relações contemporâneas da Arte com as questões mercadológicas e cientificistas dentro do nosso atual socius capitalista, ou ainda como, dentre todos os discursos, porque alguns são idealizados e postos a funcionar como Arte, não serão aqui tratados. Contudo, já caminhando para o desfecho do texto é preciso dizer, quase que como um postscriptum, que como coloco a Arte no campo da poética (criação/pensamento), certamente concordo que muito do que é produzido hoje e discursivamente funciona como Arte está no campo de sistemas de reprodução e representação dentro da instância do que chamamos de indústria cultural, isto é, na intenção de abranger o máximo de consumidores de camadas sociais diversas, o que não considero nada saudável para “liberdade” de criação artística. Mas adentrar nisso já é uma outra história.

 

Para a boa degustação da conceituação do texto recomendo:

 

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento.

DE CERTEAU. A escrita da história.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber.

GADAMER. H-G. Linguagem e Compreensão.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo (Vol. I).

HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica.

SARTRE, J. P. A imaginação.

SARTRE, J. P. A náusea.

20Abr2009 - 00:02 | ( 1 ) comentários

Um Besteirol Sobre Signos

Olá a todos! Tenho estado ausente por um tempo, embora essa ausência tenha seus motivos. Agradeço aos que continuam visitando o blog e lendo essas idéias experimentais. Segue abaixo mais alguns arrotos bestiais.

É interessante pensar que todos os sentidos mnêmicos humanos estão, de alguma forma, ligados signicamente; certamente essa é uma herança dos primórdios do pensamento hermético (para saber mais vide “Interpretação e Superinterpretação” do semiólogo e romancista Humberto Eco) . Na verdade, não poderia ser herança, pois aí teríamos que considerar a morte desse pensamento, embora seja claro que ele continue vivo no diálogo humano com os entes. A forma como as palavras foram sendo elaboradas nesse diálogo demonstra a linha, ou círculo, ou espiral onde vemos idéias ligadas à idéias.

Para ficar mais claro essa proposição basta que elaboremos dois exemplos demonstrando simples possibilidades: 1) uma estrela no céu é uma elaboração sígnica arcaica na memória humana, mas uma estrela do mar, animal aquático, se tornou estrela graças a atribuições analógicas, ou seja, um conceito nomenclativo já elaborado deu forma a outro conceito. 2) também existem as ligações que geram resultados que estão além dos significados e significantes; por exemplo, o coração é o órgão responsável pelo bombeamento de sangue para todo o corpo; já o amor, grosso modo, é um sentimento que se relaciona a uma afinidade profunda que umas pessoas têm por outras. Veja que tanto o amor quanto o coração existem de forma independente, isto é, não precisam necessariamente um do outro para existirem, mas no momento em que alguém desenha um coração e coloca dois nomes a sua volta, o coração se torna instantaneamente amor (nesse caso, eles ligam-se através da enciclopédia cultural de uma comunidade). Os limites da decodificação de uma proposição sígnica como essa – signo “coração-amor” –, no mundo contemporâneo, graças à maneira como transitam as informações (leia mundialização), pode ser verificado em várias culturas diferentes.

Em uma conversa com qualquer pessoa vemos como é natural um assunto ou uma idéia se ligar a outro assunto e seguir numa órbita elíptica que não se estende ao infinito pelo simples motivo da impossibilidade de mantermos uma conversação infinitamente. As expressões “a propósito” ou “por falar nisso” são exatamente os links “formais” de ligação de um assunto para outro, embora em muitos casos, em um diálogo, o trânsito se dê de maneira “informal”, direta e livre de anúncios.

A modernidade fundou uma dicotomização sem precedentes na história da humanidade, no entanto, vemos o quanto todas essas dicotomias são apenas ilusões que nos distanciam do Ser dos entes. Por exemplo, é comum haver uma separação entre homem e natureza, embora o homem também seja natureza, afinal, tudo o que construímos foi dentro e em contato com uma “estrutura transbordante”: a natureza. Alguém já parou pra pensar que morte é vida e que vida é morte? Não existiria morte se não existisse a vida e vice-versa.

O pensamento cartesiano e o uso que fizeram do pensamento de Platão se tornaram o sistema de idéias visivelmente presente no cotidiano do homem contemporâneo. Praticamente tudo se construiu e se constrói dentro de dicotomias e representações. Mas o mais complicado é pensar que o homem nem sequer tem consciência dessa condição, e pode nunca chegar a ter.

Neste texto, tentei manter uma coerência estrutural dentro de um assunto específico, embora várias vezes fui tentado a ir para outros destinos discursivos e me perder no infinito mundo da poética.

Até a próxima!

 

27Jan2009 - 01:38 | ( 2 ) comentários


Ciência e Poder

Nesta postagem vou tentar fazer algo inusitado: construir um breve texto onde abordo Michel Foucault em um de seus brilhantes momentos no importante livro A Microfísica do Poder, utilizando também o filme Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo's Nest, do diretor Milos Forman, 1975) para realizarmos uma análise e uma comparação com o tema da “autoridade científica”, em especial da ciência médica psiquiátrica. Só uma ressalva antes de começar: perdoem-me por não estar tão inspirado para escrever, estou travando compulsivamente.

Os sistemas de vigilância que fazem a “égide” do mundo moderno estão além de simples instituições normatizadas que cumprem funções de defesa da ordem vigente carregando um discurso de que trabalham em prol da sociedade. Um louco que é internado por ser considerado uma anomalia na sociedade contemporânea passa por uma série de processos que, se formos analisar, chegaremos a toda uma estrutura subjacente que se renova e se reafirma. O fato é que “nem tudo é verdadeiro; mas em todo o lugar existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que no entanto está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada”. É o que diz Michel Foucault sobre a verdade, nos permitindo fazer abstrações para perquirir sobre os discursos que correm, funcionam e se afirmam como verdade. Mas antes de irmos além é preciso fazer uma introdução mais delineada para então chegarmos às verdades da ciência, no caso deste texto, a ciência médica psiquiátrica. Aproveitarei o filme Um Estranho no Ninho para analisarmos de forma mais clara, uma vez que teremos a oportunidade de citar exemplos que podem ilustrar as estruturas que vigoram no mundo moderno.

A filme aborda a história de um homem que estava em uma prisão para criminosos (é bom classificar, pois há diversos tipos de prisões hoje) e através de algumas alegações consegue uma transferência para um hospício, onde passa a conhecer o cotidiano do lugar, o perfil dos pacientes, o perfil das enfermeiras e dos psiquiatras. Apesar de não parecer demonstrar características de psicopatias mentais, o personagem principal permanece sob observação, e de acordo com o relatório do psiquiatra, sua estadia ali e seu período de avaliação se justificam pelo fato dele “não gostar de trabalhar”, “por ter uma personalidade bastante agressiva” e etc., sendo que as observações do relatório médico-psiquiátrico jamais justificariam sua estadia no hospício. O fato é que o personagem fazia uma espécie de teatro, fingindo ser “louco”, para poder sair da cadeia, um lugar de enclausuramento total e de vigilância extrema. Mas o que ele não esperava é que fosse encontrar no hospício todo esse sistema de vigilância, enclausuramento e repressão estruturalmente iguais aos da prisão, só que com roupagens diferentes.

Apesar do filme ter um roteiro de ficção, toda a construção cenográfica e comportamental foram baseadas na realidade de um hospital psiquiátrico. Entretanto, o que importa observar de forma mais densa é o questionamento sobre o saber médico-psiquiátrico. Será que um profissional que se diz apto a avaliar se alguém está louco ou não, ou ainda, se alguém pode permanecer em convivência com a sociedade ou não, cometeria erros tão grosseiros como os presentes na história da psiquiatria? Ora, o psiquiatra já enclausurou no século XIX e XX pessoas que em nada podiam ser chamadas de loucas, e os discursos teóricos ao qual estão sujeitos partem de um conhecimento bastante duvidoso. O que quero dizer é que o poder psiquiátrico tem o conhecimento normatizado pelas instituições modernas, no entanto demonstra claramente que não tem o saber; o psiquiatra pode mandar qualquer um para o hospício ou manicômio, pois ele tem o poder afirmado pelas normas, que já se tornaram culturais, do Estado moderno. Em outras palavras: ele tem o diploma; ele é o autor (autoridade) e supostamente pode avaliar a sanidade de alguém a partir do seu conhecimento; e o poder que lhe é conferido pode enclausurar qualquer um. É realmente um grande poder concedido a prática psiquiátrica.

O sujeito (no sentido sujeito-objeto) psiquiátrico é dono do conhecimento psiquiátrico e cala a voz do objeto que não pode entender ou compreender, e que não está apto a questionar o laudo de um indivíduo dono do poder do conhecimento. Agora podemos compreender com mais clareza a citação de Michel Foucault, descrita ainda no começo do texto, que fala sobre a verdade: e o que é a verdade científica psiquiátrica senão uma verdade que circula e funciona como um discurso a ser aceito, mas que nem sempre pode ser visto como uma verdade.

Ao falarmos sobre o psiquiatra, se torna vital falar sobre o “hospital especial” que o psiquiatra desenvolveu – já que é ele a autoridade que define isso – para seus “pacientes especiais”. E como o filme Um Estranho no Ninho demonstra magnificamente bem o sistema prisional que é um hospício, vamos utilizá-lo como exemplo. Na película, um dos personagens que mais causam ódio nos espectadores é a enfermeira-chefe. Uma mulher extremamente autoritária que o tempo todo faz funcionar o sistema de vigilância, repressão e enclausuramento do hospício, que já é um ambiente fechado e claustrofóbico. Sempre implacável, sua atitude certamente não ajudaria na recuperação ou mesmo apaziguamento dos ânimos de pacientes com supostas complicações mentais, principalmente em um ambiente onde tudo é medido, tudo é racionado, tudo é vigiado.

Um recinto como um hospício, onde até mesmo pessoas “normais”, se fossem internadas, se tornariam loucos, não é o melhor lugar para tratar de pacientes com enfermidades mentais; sem falar na prática geral de dar remédios neuro-psico-terápicos que mudam em grande escala as reações de um indivíduo, mesmo que fosse considerado de sanidade normal.

Como indicação, posso dizer que esse é um grande filme para quem quer compreender, de forma leve e genérica, a realidade prisional de um hospício, onde o saber psiquiátrico é guiado por um conhecimento que chamaríamos de abstrato, pois não condiz com a realidade e a necessidade médica da terapia que os pacientes realmente precisariam. O hospício funciona como uma prisão, como uma exclusão, não como um tratamento ou uma reabilitação, e assim como as prisões, os hospícios se constituem armas do poder, são a manifestação do discurso do próprio poder do intelectual. E como questionaria Foucault:

 

“É possível que a produção da verdade da loucura possa se efetuar em formas que não sejam as da relação de conhecimento? Problema fictício, dirão, pergunta que só tem seu lugar numa utopia. De fato, ela se coloca concretamente todos os dias a propósito do papel médico, do sujeito depositário do estatuto do conhecimento, no trabalho da despsiquiatrização” (Microfísica do Poder).


 

21Set2008 - 23:31 | ( 6 ) comentários

Amor? Love? Amour? Liefde? Liebe?

Ao tratarmos de conceitos ligados a uma forma subjetiva/objetiva de sentimentos e sensibilidade, certamente o epicentro para um perscrutar está refletido no padrão “normatizado” pelos processos sócio-culturais em determinadas sociedades e tempos. Isso significa que em determinados povos e culturas específicas há diferenças consideráveis nas concepções sobre conceitos sentimentais como o amor, o ódio ou mesmo a relação com a finitude.

Através da linguagem foi possível a padronização cultural da relação sentimental, por exemplo: os Romanos tinham concepções diferentes em relação ao mundo infantil. Não havia concepção de amor pelas crianças como o perceptível na contemporaneidade (isso se atendo apenas ao mundo ocidental). Uma atitude sócio-política clara, e que esclarece bem essa relação, é a lei instituída pelo Império para dar fim às crianças que eram abandonadas pelos pais. Se refletirmos, podemos ainda chegar à conclusão de que isso era um fator comum e até certo ponto problemático para o contexto e necessidades sociais do período em questão, pois foi necessário que o Estado instituísse uma lei para dar fim aos abandonados que fossem refugados pelo mundo da prostituição – em geral mulheres – ou da escravidão – em geral homens – (lembrando que escravidão e prostituição têm arcabouços diferenciados na cultura Romana, assim como em outros momentos históricos).

Na construção em relação a conceitos, quaisquer sejam, sempre há um processo, verificável historicamente, dos adventos de identidades culturais-étnicas de povos, que se desenrola naturalmente através do convívio e relacionamento de grupos humanos desde os primórdios da existência da espécie – logicamente no mundo arcaico os padrões ainda eram muito "primários", mesmo porque a linguagem precisa do tempo e da memória para se constituir nos seus aspectos mais complexos.

O amor se enquadra a um conceito em que suas determinações e profundidade podem variar de acordo com a cultura e o momento histórico. Uma linha singular (no que tange o amor) entre as diversas culturas pode ser encontrada no fato do amor estar ligado a uma afinidade forte entre seres, muitas vezes com ressonância individual, mas que está delineado por simples e complexas relações de afinidade sentimental.

Discorrer sobre temas abstratos que só se mostram claros no íntimo do mundo supra-sensível nunca é uma tarefa fácil. E é válido dizer que temas desse teor geram teses e mais teses que se desdobram em páginas e páginas e muitas vezes não dizem muito. Nesse pequeno texto, tentei explicar, a grosso modo, como podemos enxergar o amor. Mas o que deve ficar claro na cabeça de qualquer ser humano é que o amor é um sentimento que tem suas características gerais “identitárias”, contudo, mesmo através dessa identidade, seu reflexo mais profundo se encontra no âmago subjetivo, dado sua profundidade e complexidade.

 

 

18Mai2008 - 14:44 | ( 2 ) comentários

Correntes Mentais

Por André Assunção

Mais um dos meus textos! Esse tem uma lógica legal, mas só posso dizer uma coisa: leia até o fim antes de tirar qualquer conclusão! Obrigado a todos que visitaram o Blog nesses dias de ausência.

 

T

alvez não haja necessidade de descrever minha aparência, pois ela fica bem clara ao descrever que tipo de ser eu sou. O fundamento da minha existência é praticamente desconhecido por mim ou qualquer outro, mas o que eu sei é que existe um Criador que tentava me manter saudável, bem alimentado, com um lugar destinado só ao meu descanso, minha felicidade, e que sempre arrumava artifícios novos onde eu podia aliviar meu stress – pelo menos com meu Criador era assim, contudo, existiam alguns deuses que maltratavam suas criações.

Ter passado todos esses anos em regime de prisão não fez muita diferença pra mim. E quer saber! Não sei como seria se fosse diferente, nunca vivi de outra forma! Desde que nasci fui orientado por Deus a agir da forma como ele quisesse, e cansei de fazer as coisas de outra forma e levar broncas Dele. Isso sempre foi um problema para mim! Esse diálogo com Deus. Ele falava uma língua um tanto estranha, e o máximo que dava para fazer era decorar algumas poucas coisas que ele me pedia. Tenho que admitir que muito se tornou costume e então, eu aprendi a não questionar mais nada, a ser apenas um bonequinho de Deus! Não pense que isso era ruim. Era apenas a garantia da minha sobrevivência. No entanto, sempre estava tentando manter meus instintos presos dentro de mim, e realmente era algo complicado, que gerava muitos sentimentos estranhos. Será que não seria melhor eu me libertar e consequentemente libertar meus instintos? Será que eu não me tornaria um ser mais forte e dono de mim mesmo? Não dá para saber! Boa parte do meu povo já está aprisionado neste tipo de cultura. Sempre fomos orientados pelos sábios a não questionar nada. E assim a vida continuava!

Nunca tinha visto o diabo! Mesmo que muitos dos meus companheiros continuassem a dizer sobre como ele sempre estava à espreita, a espera de um pequeno vacilo. Diziam que ele vivia por trás dos portões de metal e madeira e caminhava pela terra com grandes veículos, agarrando qualquer um que não estivesse mais em comunhão com Deus. Muitas vezes ouvi os gritos de colegas pedindo socorro e se debatendo diante do demônio, mas eu não seria tolo de ir até lá ajudar! De nenhuma forma gostaria de arranjar problemas com o diabo, sabe como é, ele poderia me levar para o inferno.

Às vezes ficava um tanto chateado com o Filho do meu Criador. Ele me enchia a paciência, e eram nessas horas que sentia vontade de me revoltar; perdia totalmente a cabeça com certos tipos de brincadeira, que, inclusive, não levavam em consideração meus instintos (em alguns momentos assassinos). Tinha tolerado isso há anos. E por falar em tempo, já que falei de anos, uma coisa bastante peculiar se refere ao que diziam sobre as diferenças entre a nossa concepção de tempo e a de Deus, ele entendia o mundo de uma maneira muito diferente da que nós entendíamos. Parecia viver bem mais do que nós, e era comum o fato de termos que olhar para o alto quando precisávamos falar com o Criador.

Hoje não tem sido um dia muito bom, afinal, ainda não comi nada! Embora esteja agüentando cada minuto com esses milhares de vermes me corroendo por dentro. Estou extremamente estressado! Minha vida parece estar por um fio. Estou no inferno, disso tenho certeza. Meu Criador certa vez ficou muito chateado com o que fiz ao seu Filho e chamou o diabo para que me levasse ao inferno. Fiquei muito triste ao ver pela última vez a expressão no rosto de Deus e observar em sua face um quê de ironia.

Agora, aqui no inferno, o que faço de melhor é observar o cotidiano. São muitos demônios, e a cada dia eles vem aqui e levam alguns de nós, que não voltam nunca mais. Sem falar no quanto este lugar é escuro, úmido e estas jaulas são pequenas – não dá nem para fazer exercícios. É triste imaginar o que o diabo vai fazer comigo. Mas agora não posso pensar nisso, só sei que estou com fome e essa droga de fome está me incomodando.

Escuto passos! Alguém se aproxima. A grande porta de metal faz um grande estrondo quando é aberta. Será que é a comida ou chegou minha vez de partir? Dessa vez são três demônios: um profere palavras enquanto os outros dois vão abrindo algumas jaulas e retirando colegas. Eles se aproximam mais e mais, temo que dessa vez não haja escapatória. Dito e certo, minha jaula é aberta; colocam algo em meu pescoço, isso me enforca um pouco, mesmo assim me conduzem por um corredor quase sem fim. Alguns dos meus colegas, que foram pegos antes me mim, estão caídos e não demonstram mais sinais de vida – se é que estamos vivos agora. Dois demônios me seguram, e então vem o próprio diabo, todo de branco. Ele tem algo em uma de suas mãos, não posso ver o que estão fazendo, pois estão segurando minha cabeça e não há como olhar ao redor ou para trás. Sinto uma pequena dor, parece até uma picada daquelas miseráveis formigas de fogo; percebo que é algo injetável, como às vezes Deus fazia comigo uma vez de tempos em tempos ou quando não estava me sentindo bem. Neste caso é diferente! Sinto meu corpo pesado e perco a cada segundo a consciência. É o meu fim. Antes escuto um último proferir de códigos, ininteligíveis para mim, da boca do próprio diabo:

- Ele era um belo Dobermann. Pobre cachorro!

2Abr2008 - 00:09 | ( 0 ) comentários

<< Anteriores Todos