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Até que a morte não os separe Durante cinco anos, Zenaide visitava, diariamente, o túmulo de seu falecido marido, Maciel, sempre às 07h30 da manhã, As noites de Zenaide eram sempre dedicadas à música e ao cinema – “Ah, como Maciel tinha bom gosto” – dizia ela para si mesma. Já ao deitar, após um rápido lanche (o marido não tinha o costume de jantar), Zenaide se entregava com volúpia a Maciel, pois havia conseguido, com sorte, numa loja especializada, um “brinquedo” muito semelhante ao órgão sexual do marido. Certo dia, porém, já no alto de seus 42 anos, Zenaide acordou um tanto indisposta e resolveu que assim que estivesse melhor, iria ao cemitério. Por volta das 08h30, Zenaide já sentia-se bem. Vestiu-se rapidamente e dirigiu-se à garagem. Com o calor que fazia, ela sentiu-se impelida a aproveitar a piscina, de cuja limpeza jamais deixou que os empregados descuidassem, pois Maciel adorava mergulhar. Pensou...pensou...pensou...até que concluiu que apenas um dia sem ir ao cemitério não lhes faria mal – nem a ela e nem a Maciel. Zenaide, após o banho de piscina, deu-se conta de que há muito tempo não se sentia tão satisfeita. Resolveu, portanto, continuar dedicando aquele dia a si mesma (não, não haveria problema algum). Avisou Dulce que iria almoçar fora e assim o fez. Estranhou como, após pouco mais de cinco anos sem ir ao shopping, ele continuava igual, não havia mudado nada. Zenaide resolveu admitir para si que estava enjoada dos filmes cult de Maciel e foi ao cinema ver um dos seus tão queridos filmes “água com açúcar”. E assim, Zenaide continuou, nesse e nos próximos dias, a fazer coisas que lhe dessem prazer (ousou até flertar com um executivo no restaurante), percebeu que não poderia fazer da morte de Maciel a sua vida. Todavia, tinha a sensação de que algo ainda estava faltando... Desde que se casou, Zenaide vivia em função do marido, que, inconscientemente (ou não), a dominava. Durante os seis anos de casamento, ela nunca reclamou disso, pelo contrário, achava que gostava. Um dia, entretanto, Zenaide passou a incomodar-se com a situação, mas já era tarde demais para revertê-la, pois àquela altura o marido não mudaria mais. Eis que, cada vez mais desconfortável com tudo, Zenaide, sem pensar muito, contratou um pistoleiro para eliminar Maciel (não foi difícil incriminar seu sócio, pois as brigas entre os dois tornavam-se cada vez mais públicas). De nada adiantara o assassinato de Maciel, pois, embora ele estivesse morto, Zenaide não conseguia desprender-se, continuava vivendo em função do marido. Zenaide decidiu então, que o melhor que tinha a fazer era mudar tudo: doou suas roupas e as de Maciel para os empregados, vendeu a empresa, a casa e os carros e mudou-se de cidade, a fim de começar uma vida totalmente nova. Ela agora estava definitivamente vivendo para si mesma. Zenaide finalmente matara Maciel. Estava viva novamente! Rafael Faber Fernandes
14Jun2007 - 13:17 | ( 34 ) comentários | |||