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(CARLOS ALBERTO BISSOGNO) Pretende-se fazer destas páginas um prelúdio, ensaios de uma filosofia nascente que testa os objetivos, formas e fins —, parábolas onde o mito representa a projeção de um drama cósmico e ao mesmo tempo individual, que reflete a verdade, sem ditá-la; expressa seu significado, sem a pretensão de nomeá-la. | ||||
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.::EPÍGRAFE::. "Começa aqui meu desespero de escritor (...); como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha tímida memória mal e mal abarca? (...) Um pássaro que de algum modo, é todos os pássaros (...) uma esfera cujo o centro centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; (...) um anjo de quatro asas que, ao mesmo tempo, se deirije ao Oriente e ao Ocidente, e ao Norte e ao Sul. ( Não é em vão que rememoro essas inconcebíveis analogias; alguma relação elas tem com o Aleph)" Jorge Luiz Borges - O Aleph
.::SOBRE O AUTOR::. Carlos Alberto Bissogno Nascido em 24 de março de 1981 Campos dos Goytacazes, R J Graduado em Ciências Naturais e suas Tecnologias/ Licenciado em Física Formado no Curso de Jornalismo Científico pela COMTEXTO - Comunicação e Pesquisa com o Prof. Doutor Wilson da Costa Bueno Produtor e Compositor Musical Professor de Artes e Música
.:: aquillus@gmail.com::. |
O Princípio e o Fim: Um Ensaio Sobre os Limites e o Futuro do Discurso Científico Por Carlos Alberto Bissogno
Mas por que a ciência estaria correndo perigo? A curiosidade é indolente e se apega facilmente a comodidades tolas. Por fim, o que a motivou em princípio, pode acabar por desencadear seu fim. Há uma invasão maciça de embustes científicos nas mídias tradicionais e principalmente na Internet que deslumbram a curiosidade. A ironia é que isso está acontecendo à medida que se estabelece uma sucessão extraordinária de progressos tecnológicos e científicos como nunca houve na história da humanidade. Parece ainda incompreensível que alguém que trabalhe diariamente com um dos mais complexos equipamentos já criados, o computador, derivado da aplicação de um volume gigantesco de descobertas da física, química e da matemática, acumuladas ao longo de muitos séculos, seja a mesma pessoa que acredita em astrologia, duendes, homeopatia, anjos, criacionismo e outras sandices do gênero. Parece que os objetos se tornaram tão intricados que se igualaram a magia aos olhos de todos —, analfabetos científicos. Há também divulgadores científicos e professores, que se julgando senhores de toda a verdade, ignoram que a própria ciência pouco a pouco se descobre menos “científica” do que se pensava. Desconhecem que ela é mais compassiva a se aproximar dos afetos humanos do que se imaginaria. Propagam o mito de uma ciência fria, intimidando talentos, e se fechando, bloqueados de inspirar paixões voltadas a ela. Há a necessidade de uma reconstituição — melhor dizendo —, de uma reconstrução da idéia de ciência e que seu conceito “moderno”, que está vinculado ao projeto iluminista de ordem, controle e síntese, assumido impetuosamente pela tecnologia, seja substituído de forma responsável por uma percepção de prudência, coerência e plausibilidade. Na modernidade, em especial na Revolução Científica dos séculos 18 e 19, a procura por explicações sobre a natureza e a vida tornou-se a mola propulsora da sociedade. E foi justamente para atender as expectativas de uma sociedade sedenta por ter notícia desses avanços que surgiu o jornalista científico arrogando para si o direito (e o dever) de transformar conhecimento científico e tecnológico em informação de compreensão popular. Todos reconhecem que por meio de seus rituais de descoberta, a ciência prolongou a vida, venceu doenças e ofereceu novas liberdades sexuais e comerciais. Derrubou deuses e revelou um cosmos mais complexo e espantoso do que qualquer coisa produzida pela imaginação. Mas apesar de toda sabedoria acumulada até hoje, a ciência ainda não conseguiu respostas para questões fundamentais, como a razão da existência do Universo e da própria vida. O fracasso das pretensões que o cientificismo tinha de respondê-las abre espaço para o retorno do sobrenatural na compreensão da realidade. Isso está acontecendo de forma significativa, e infelizmente os jornalistas e editores não hesitam em comprometer sua própria integridade e a de seus órgãos de comunicação ao fazerem reportagens constantes com "alternativos" e "esotéricos", dando credibilidade a estes por meio de uma linguagem sensacionalista e acrítica. Ninguém tem nada contra entretenimento e fantasia, mas a mídia deveria ser mais responsável e íntegra, marcando claramente o que é ciência e o que é crença. Alguns cientistas devem se perguntar, atônitos, diante do vigor cada vez maior das religiões fundamentalistas em todo o mundo, se as velhas certezas terminaram por ocupar o vácuo criado pela falta de conclusões científicas quanto às grandes questões da vida cotidiana. A ciência não é muito reconfortante em momentos de morte —, imaginam. O ser humano acredita já ter descoberto o que podia sobre os principais mistérios da natureza, como a origem do Universo no Big Bang, as propriedades da matéria e da energia determinadas pela mecânica quântica, os fundamentos do espaço e do tempo explicados pela relatividade e o desenvolvimento da vida, elucidado pelo código genético e pela teoria da evolução de Darwin. Reduz-se tudo a idéias mortas incapazes de obter um desenvolvimento para além do já conseguido. Todos se voltam à vida prática e se perguntam apenas como a ciência e o conhecimento já adquirido podem resolver seus problemas imediatos. Assim surge o empenho enfático no desenvolvimento da tecnologia, e as prioridades de pesquisa se tornam cada vez mais politizadas e demagógicas. Mediador entre a ciência e a sociedade, o jornalismo científico foi definido como o porta-voz da fronteira do conhecimento humano. Seu objetivo era popularizar a ciência, atendendo às necessidades do cidadão de compreender como e por que as descobertas científicas e tecnológicas o afetam. Porém muita coisa mudou. Sentimos os efeitos devastadores das duas grandes guerras, da poluição, do aquecimento global, do buraco na camada de ozônio, da urbanização desordenada, entre outros mais que revelaram uma face do progresso científico que o homem não queria ver. Problemas pragmáticos sérios ainda não foram solucionados, como o câncer e a AIDS que continuam a obscurecer muitas vidas. Dificuldades como estas ajudaram a alimentar o desencanto da sociedade com a ciência. A tensão entre a ciência e o público, iniciada nos anos 60 com o movimento ambientalista, criou novas barreiras à pesquisa que hoje pleiteia empregar células-tronco e clonagem humana “para o bem da humanidade”. Não temos mais a mesma impressão otimista e triunfalista criada pela ciência moderna. Além disso, o próprio método científico moderno, inquestionável até então, entrou em xeque após a ascensão da física quântica, das descobertas da teoria geral da relatividade e da entropia. As ciências físicas parecem ter perdido uma linha narrativa que no passado lhes era favorável e estão ligeiramente à deriva, perdendo contato com a realidade, entrando no âmbito da fantasia e da imaginação pura, abstrata, com suas novas dimensões e supercordas. Estudos de intelectuais como Jean François-Lyotard, Gaston Bachelard e Thomas Kuhn parecem concordar em um mesmo ponto: a queda do véu de infalibilidade científica cria a convicção de que o conceito de ciência, bem como seus métodos, dependem em grande parte das mudanças sociais e ideológicas de sua época. Dessa forma, a ciência torna-se mais aberta para aceitar a história e a filosofia como critérios válidos para a compreensão da realidade. Não é de se espantar, portanto, que quando a noção de ciência muda, muda também a maneira de se divulgar a ciência. Na verdade, o jornalista científico acaba ficando preso a sua época — e hoje, tudo é mercadoria. As revistas de divulgação científica brasileiras, como maiores representantes da popularização do conhecimento científico no país, não ficam atrás e também apresentam claramente os efeitos da chamada "crise da ciência" em suas pautas e linha editorial voltadas especificamente a atender ao mercado, esquecendo aos poucos seu compromisso social de fonte elucidativa que fala mesmo o que não se quer ouvir. Definir precisamente com palavras o rumo da ciência e, por conseguinte, do jornalismo científico parece-nos uma tarefa tão difícil quanto, usando os métodos e equações probabilísticas da física quântica, determinar sua trajetória histórica. Afinal de contas, se o próprio conhecimento científico está tão fragilizado e incerto em sua realidade, o que se pode exigir dos jornalistas científicos? À medida que o mundo avança por um século nascido em meio à disputas pelo petróleo, a um clima político divisivo e a desafios cada vez mais sofisticados à vida, parece justo fazer uma pergunta que vai de encontro a séculos de pensamento ocidental. A ciência ainda será capaz de nos dar as respostas que queremos? Se até então não encontramos resposta, ao menos há o alento da prosa realisticamente perturbadora de Jorge Luiz Borges (EL HACEDOR, 1952): “Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de habitação, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto”. 22Mai2008 - 17:26 | ( 5 ) Comentários & Críticas O Paradoxo do Corvo: Quando a fé é necessária Por Carlos Alberto Bissogno
Uma gota, um fio de cabelo ou uma célula servem como vestígios e podem apontar o autor de um crime aparentemente sem provas. Por isso mesmo, o investimento em tecnologia é um dos itens destacado pelos diretores da Polícia Científica de São Paulo. No entanto, a reconstituição da morte de Isabella Nardoni, no Edifício London, Vila Mazzei, Zona Norte de São Paulo, onde ela foi assassinada em 29 de março, a partir das conclusões elaboradas por peritos criminais abrem uma séria discussão sobre até onde podemos acreditar na infalibilidade dos métodos e preceitos científicos. Recursos tecnológicos são apontados como as principais novidades no trabalho da polícia científica neste caso de assassinato que mobiliza a opinião pública. A coleta de provas e a análise do local estão demonstrando ser fundamentais para esclarecer a autoria deste crime. É nesse momento que entra em cena o perito criminal que tem seu trabalho como a base para as investigações da polícia e a chave para esclarecer vários enigmas nas melhores entidades investigativas do mundo. Contudo, é necessária, nesse momento, uma séria reflexão: Por que deveríamos supor que só porque, repetidas vezes, verificamos que apenas há corvos pretos frente a nossos olhos, significa que "todos os corvos são pretos" quando esta afirmação poderá ser facilmente falsificada pela observação de um corvo vermelho? A resposta para esse pergunta é simples: necessitamos acreditar nisso, precisamos ter fé que assim sempre será, só assim controlamos os fatos e podemos inferir sobre eles. Se alguém afirma que a ciência é impassível, que é impossível uma ciência intuitiva, metafísica, é porque não meditou com suficiente profundidade a sua noção de “objeto”. Hoje sabemos, melhor dizendo, assumimos o papel fundamental da intuição nas grandes criações humanas, mesmo as científicas. Olhando um quadrado, mesmo prescindindo da experiência de um estudo prévio, sabemos instantaneamente que não podemos dividi-lo em dois quadrados com uma única linha reta. Saber isso de imediato é ter a intuição do quadrado. Além disso, nosso conhecimento sobre os objetos reais é apenas fruto do que somos capazes de pensar sobre ele e essa capacidade é delimitada por nossa expectativa. Vivemos na verdade um anarquismo teórico travestido de metodologia cientifica. O perito é treinado para ver o que os outros não enxergam e esse treinamento se sustenta em basicamente dizer-lhe o que procurar e como procurar. Ao chegar ao local de um crime, os técnicos fazem uma primeira varredura em busca de pistas e devem ser os primeiros a chegar com o cenário já previamente isolado para que se acredite ter preservadas, antes de tudo, as condições em que o crime foi cometido. “Esse local tem que ser preservado o máximo possível para que os vestígios que vão ser analisados sejam os mais reais possíveis”, diz o perito criminal Ricardo Salada. Entre o material básico carregado pelos peritos estão lupas, pincéis para o recolhimento de impressões digitais e luz ultravioleta, que realça e capta materiais biológicos: manchas de sangue, líquido seminal, saliva e suor que só são vistas com o auxílio de uma lente especial. “Todas as análises passam por cálculos e serão prova probabilística que fará parte de todo o inquérito", disse Eloísa Bittencourt, diretora do Núcleo de Bioquímica do Laboratório de DNA da Polícia Científica de São Paulo. No caso Richtoffen, a perícia foi decisiva para chegar aos culpados pelo assassinato do casal Marisia e Manfred: a filha Suzane, o namorado Daniel e o irmão dele. “O local fala. Uma porta entreaberta, uma luz acesa, uma televisão ligada, são informações que vão começar a me dar dados de como aconteceu o crime”, conta o perito criminal Ricardo Salada que foi o primeiro a chegar ao local do crime e logo percebeu que havia algo estranho. “Bagunça organizada, uma bagunça orientada. Outros pontos da residência que não foram nem mexidos.” No quarto do casal, o revólver deixado por supostos ladrões também chamou a atenção. Não foi simplesmente um latrocínio - um ladrão jamais deixaria uma arma de fogo no chão. Indiciados pela morte da menina, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta de Isabella Nardoni, se tornaram suspeitos de homicídio doloso (com intenção) qualificado por motivo torpe, crueldade e impossibilidade de defesa da vítima através de um conjunto de laudos técnico-científicos resultado das várias visitas dos peritos ao local do crime e do exame do corpo da vítima. Mas para chegar a isso os peritos se reuniram para tentar chegar a um consenso e até pediram opiniões externas de outros colegas, pois a intenção era entregar o laudo à policia o mais rápido possível e sem contrariedades. A ciência se vende como não possuidora de contrariedades. Assim, após semanas de tentativa do Instituto Médico Legal (IML) de responder o que teria provocado a morte de Isabella, os legistas só não tinham dúvidas e concordavam que a menina sofreu uma parada respiratória: exames apontaram marcas no pescoço, manchas no pulmão e no coração, e as pontas dos dedos avermelhadas, sinais que normalmente indicam asfixia. Duas dúvidas ainda precisavam ser esclarecidas pelos legistas: o que teria deixado a menina sem respiração e se a parada respiratória teria acontecido antes ou depois dela ser jogada do 6º andar. Fatos fundamentais para o desenrolar do inquérito. Para responder às questões, os médicos estudavam três hipóteses. A primeira era a de que Isabella teria sido estrangulada. O aperto no pescoço teria deixado a menina sem respiração e provocado um desmaio. A segunda apontava para uma convulsão. Um levantamento feito pelo IML mostrava que Isabella poderia ter sido chacoalhada com muita força. Nesse caso o cérebro teria ficado sem oxigenação por mais de cinco segundos, o que também provocaria um desmaio. A última era que a menina tenha sofrido uma parada respiratória causada pela queda. Hipóteses completamente díspares entre si que transformariam completamente a cena e as possíveis motivações para o crime. Por fim, após as inúmeras conferências, prevaleceu, sabe-se lá por que, a versão do estrangulamento. Para tentar aproximar-se da realidade, os peritos utilizam-se de processos probabilísticos que apontam e supõem uma direção que pode ou não, em medida matemática, se configurar em reais fatos. Não há, pois, como escapar, uma teoria não passa de uma suposição quimérica. A metafísica, nem sempre consciente, não é apenas possível, mas absolutamente necessária, no mínimo como fundamento, implícito ou explícito, das ciências. “A perícia é um trabalho delicado, que exige, antes de tudo, a preservação da cena do crime. Sua finalidade, tanto criminalística quanto médico-legal, é fornecer os elementos para aqueles que têm a competência legal p’ra indiciar, denunciar e sentenciar. O perito não condena nem absolve ninguém, só fornece elementos pra quem pode fazê-lo”, conclui o coordenador da Polícia Técnico-Científica de São Paulo, Celso Perioni. 30Abr2008 - 18:39 | ( 0 ) Comentários & Críticas
Ensaio II “O Belo é o esplendor da verdade” — assim sentenciou, equivocadamente, Platão há quase vinte e quatro séculos. Mas que é a Verdade?... Aristóteles, também perguntado sobre “o que é a Beleza” — respondeu não outra coisa a não ser que “só um cego pode fazer esta pergunta”. O Belo sensível é tangível somente aos que sentem. A Verdade é uma ilusão do pensamento, e a Beleza não deixará de ser nada além de um sonho dos sentidos. Há, portanto, mentiras belíssimas —e sob o ponto de vista artístico, acercando-se dele e sua matéria: o Belo — é lícito dizer que a Mentira é sempre mais bela do que a Verdade; o sonho mais esplendido e admirável que a realidade. Fruto de uma loucura individual é a contemplação do Belo singular em cada olhar que acredita tê-lo encontrado. O vislumbre da Beleza é alvitre de uma fé em si mesmo. Uma fé que nem a aparente estética coletiva é capaz de ocultar em si, pois ao ser vista de perto, pautando-se cada indivíduo—, individual também a Beleza que se desvela em seus olhos. Tudo que existe está imbuído de Graça. O Belo é o que amamos! A Graça nos atrai, faz com que dispensemos atenção a ela—, e conhecendo-a através da ilusão (uma concessão calada), a amamos. Agora, amamos o que nos é Belo...
6Ago2005 - 00:39 | ( 3 ) Comentários & Críticas
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