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TEU PESCOÇO de VÍTIMA

 

 

Encho de sonhos o navio e domino o mar
tirando da cartola cidades e manhãs,
e se louco desfio o horizonte
e desequilibro os limites
as estrelas mergulham no oceano
que muito mais do que o céu
na garrafa é o meu sonho
se alastrando além da bandeira
e do verão azul.

Não há razão que permaneça
quando o fogo chega, mas o sonho
domina a estrada que enche as curvas
de salteadores e mesmo dormindo
sòzinho ouço a voz do anjo que desce
pela noite espalhando estrelas
na sede de crianças frente ao barco de papel
que revelamos tomados pelo céu.

Não há fuga, estou acorrentado ao destino
e apedrejado percebo solidariedade
apenas no leproso, no mendigo e no escravo,
e sei que o meu sangue alimenta o sol
como o escândalo é a tatuagem do vendido,
numa espera de sapo vejo que o silêncio
é a fumaça do descrente e arranco sangue
do teu pescoço de vítima atirando cusparadas
ao santo, porque o tempo, meu amor,
é de apontar o sol ao urubu como única saída,
pois se o deserto é uma canção modulada
em gelo e dentes cerrados
o caos aguarda o dono dos olhos
chispar o motor.

24Ago2007 - 21:18 | ( 2 ) comentários

AURORA do SEMÁFORO

O Sol derreteu
escorrendo pelas frestas do céu
onde os encanadores do estômago
vêem praias,
não pensem estes redentores do auto-perdão
que vou mergulhar na piscina dentro de mim (não!)
como querem os que passaram pela vida
com olhos-turistas,
não vou apagar meu fogo
com o dinheiro que transborda o sangue dos desenterrados,
sangue drenado nas represas da desumanização
p'ra passagem do navio de intestinos penteados
na escadaria da igreja estufada pelo arroz
dos noivos do vício deixado aos filhos bastardos
enquanto aos órfãos da pátria drogada e prostituida
disputam a carniça aos urubus.

O corpo de bombeiros arde em chamas
e o mercúrio transborda das represas,
o exército guarda almoços importados
e a multidão bêbada por mártires
crucificando rebeldes
nos matadouros,
para deleite dos esqueletos abandonados.

Da vagina da venida brota uma espiga de ferro
parindo um semáforo vermelho
como um olho do inferno
flertando com olho solar
dos cabisbaixos,
engolindo a escuridão
num ranger crepuscular.

E quanto mais se anoitecem
como polvos pelo avesso
mais o mundo é um atoleiro
formado das almas
dos que despiram o espírito
e deixaram apoderecendo no chão

Nossas vidas sepultadas sob as letras nos papéis,
e caminhamos por uma cidade cujos edifícios são as leis,
das páginas dos jornais escorre o sangue do filho e do pai
escorrendo belos bueiros como uma aurora marginal
nascendo nas calçadas,
o céu sórdido
dos que brotaram no túmulo carnavalesco
da civilização
e que não passa de um curral de bois atolados na baba do delírio

22Ago2007 - 21:44 | ( 6 ) comentários

REI MENDIGO

Encostei o ouvido no chão
esperando a vinda da Morte da Máquina
e quando isso acontecer
vou beber o sangue do peito
p'ra comemorar
serei, quem sabe? o derradeiro Rei
mendigando a uma raça miserável
que o sirva
e se os risos materem de vergonha
a liberdade será plena
não existe corrente na incerteza
apenas a noite como estrada

Caminho por terras saqueadas
o cemitério meu refúgio
no vício o mercado,
vejo anões despindo bruxas
no cio dos vampiros,
e rei posto na bebedeira
inauguro escolas perpetuando o crime
o sol gravando sombras na minha face

Rei mendigo, rei mendigo
o sol e a lua teus olhos
na mulher a riqueza, você perdeu

22Ago2007 - 21:22 | ( 0 ) comentários

PAIXÃO VERMELHA

 

Do teu bailado flores se abrem
despertando origens alucinantes
em cada sol cravado
na garganta seca dos indigentes

Magos e eremitas alongam as barbas
enraizadas nas árvores ocupadas
por aves - metálicas como o acorde maior
e o olhar admirado, admirado
pelo teu movimento de anjo
inventando passo

Areias metálicas sopradas pelos ancestrais
em festa derrubam a paixão vermelha da lua
equilibrada pelo movimento transparente
dos lagos, disparando halleluias
com anjos vagos num repente cujo olho-na-fresta
revela amores escaldantes para felicidade
geral dos que trocaram o reino pela moto

Estou no limite da realidade, o espantalho
e o faisão vigiam se o unicórnio
libera escalas na lágrima,
mas o caipora tinge a noite
derramando sangue de boi
no riacho sanfônico dos cogumelos fogo-fátuos,
aonde conheço o céu bebendo estrelas
pela escuridão escaldante,
calado envergo a loucura no olhar
e colho amoras na fúria das lendas.

22Ago2007 - 21:15 | ( 0 ) comentários

O SANTO e o CAVALO
Em furiosos cavalos de pau galantes guerreiros
conquistaram as américas e a oceania,
fogos desentranharam do céu dos céus
a espada da lua, pela qual anjos e demônios
reduzem ao pó ônibus e botequins, desde que o Sonho
foi destacado do Caos e a multidão passou a esperar
além do sol, pelas revelações do louco.

As lendas não superam o som da estrada
engasgado nas curvas entre o santo e o cavalo,
sigamos mochilas nas costas, estrelas no relógio,
anjos guardando a tenda nos pontos cardeais
controlam o velocímetro-selvagem da razão fumegante
do Amor e da Fortuna.

O santo e o cavalo deixam lógica a flor,
se o meu passo é encapuzado
os olhos estendem o sexo
louco e eterno pela fêmea,
delirada na vontade como a fome
revela a pimenta na carne.

O sol divide a lógica entre o felino e a serpente,
é crime? desejar a mulher permanente
além do tempo e dentro da atitude,
se o saber é domar a fera que ilude
o presságio, a consciência desperta para o sonho.

A sorte busca o amor, e não é fácil
dormir coberto de estrelas e esquentado
pelos cães, mas a verdade deve nós
a existência, e ainda que a noite
junte o prazer ao motor, espero
na mulher muito além do conveniente
1Jul2007 - 11:25 | ( 0 ) comentários

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