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Texto e Contexto

uma odisséia real, virtual

e, antes de tudo, textual

A vida como um bolo de chocolate

 

 

Só pelo título, alguns dos que começaram a ler já torceram o nariz. Uns podem já estar com a idéia pré-concebida de que se trata de mais uma metáfora estapafúrdia. Mas peço, além da sua atenção, um pouco de boa vontade e coragem para o desafio.

 

Quantas vezes você não tentou fazer aquele bolo de chocolate bem de jeito que ele estava na sua imaginação, e depois de um esforço que só você sabe o quão intenso foi (vencer a preguiça após um dia inteiro, ou superar a má-vontade que reina quando se pensa em que tudo ficará sujo e mexido depois da sua decisão...) ele não fica como você queria?!... seu forno não estava regulado, as beiradas ficaram excessivamente tostadas de tão expostas, e o meio... um tanto cru. Ele cresceu menos do que você queria... humpf... Onde foi parar o seu projeto de bolo ideal, com beiradas crocantes e massa fofa?... Soma-se isso ao estado caótico em que está o mundo à sua volta... não há um talher limpo sequer.

 

Daí você acha que pode dar um jeito naquilo que, por essência, não está como imaginado... uma cobertura para disfarce. E embora você saiba que aquele está longe do ideal, as pessoas gostam dele, o admiram, o elogiam... só você sabe o que aconteceu, da sujeira por dentro do forno, do odor de queimado que ficou preso ao seu nariz. Mas é assim, as pessoas o viram por fora e ele está bonito, cheira bem. Quando provam dele, gostam ainda mais. Apesar de não ser o que seu cérebro tinha planejado nem o que seus olhos sob inspiração única tinham vislumbrado. What the hell do people see in it?! Você gastou seu tempo, se esforçou para que aquela porcaria funcionasse e o máximo que você conseguiu foi recolher um monte de elogios para algo que apenas se parece com o que você quis! Ok, você se convence de que, se tanta gente gostou, ele deve realmente ser bom, aceita os louros. Embora sua consciência ainda esteja com o alarme ativo, apitando, acusando a farsa... aceita.

 

Outras vezes, você está lá apenas para cumprir o protocolo. Pediram a você um bolo de chocolate, e por educação ou por qualquer outro motivo que não se discute nesse momento, você o faz. O que lhe cabe não é nada além de misturar ingredientes que sozinhos não têm sentido. Mistura, forno, aroma, resultado. E esse sai como você nunca imaginou fazer! Como assim?! Como ele ousa, por vontade sabe-se lá de quem, a ficar tão bom?! Como é capaz de estar tão macio após mero trabalho burocrático?! Como as beiradinhas estão tão perfeitamente tostadas, como pode exalar perfume tão bom?! Outra vez você tem que se resignar... ele está lá, bem feito, e foi você quem o preparou. Sem graça por ter se doado tão pouco por aquilo, começa a ouvir os comentários. O mérito é seu mas... ah, esquece... nem se liga nisso... Há algo de errado, ou melhor, trocado.

 

Ainda perplexo, quando começa a reclamar do que, em seu julgamento medíocre, é paradoxal, percebe que o que tem feito é reclamar de bons resultados. Sejam eles premeditados ou não, eles são bons. Não são os que você tem buscado, mas são bons. Fogem completamente à sua lógica, e ainda assim não deixam de ser bons. Nem quando escapam completamente do seu controle perdem o status de bons. Estão lá, bons. Achar que é necessário se entregar a esse inesperado é, de certa forma, um reducionismo histórico, os projetos continuam a existir, os bolos ideais ainda estão na sua cabeça e você ainda vai tentar prepará-los. Quanto aos resultados?... É melhor ir com calma. Com cada coisa em seu tempo, talvez seja mais fácil aprender a lidar com toda a situação.

25Out2006 - 11:34 | ( 20 )  Entre no Contexto 

" Não temos aqui cidade permanente,

mas estamos à procura daquela que está para vir." (Heb 13,14)

 

O que há de vir

       

Os papéis espalhados sobre a mesa. Os livros que já não encontram seu lugar nas prateleiras antes organizadas. Um par de chinelos junto à cadeira do computador. Do dia-a-dia, sinais que revelam que viver ali tem sido uma sucessão de compromissos de curto prazo. Nada é perene, nada conta história.

 

Não fossem as contas em seu nome, seria difícil saber que realmente mora ali e não é apenas um hóspede. Em todo canto há sinais de transitoriedade. Embora não lhe falte educação, não faz questão de conhecer os vizinhos, de criar vínculos, de deixar crescerem raízes. Não que queira ser um nômade, longe disso, gostaria de firmar porto seguro. Apenas não o encontrou, e afirma: “ainda”. Se tudo é temporário, sua busca não pode ser diferente, não gostaria de eternizar aquilo que por si só é efêmero. Pode girar o mundo, mas o fará em busca de sua cidade permanente. Não aquela que idealiza, pois sabe não existir, mas a que o faça sentir-se em casa.

 

            De sua organização habitual restam apenas os DVDs. Exatos cento e quarenta e sete filmes catalogados por autor, em ordem alfabética... Almodóvar, Amelio, Anderson, Betollucci, Fellini, Kubrick, Spielberg e Wenders ainda dão a idéia, ainda que fugidia, de que, em alguma instância, a ordem ainda resiste ao caos. Seus CDs, dos quais já não se lembra o número exato, sucumbiram há tempos, por todo canto há caixas espalhadas. E achar qualquer um, para seu próprio desespero, tornou-se um exercício de paciência, exceto aquele que não sai do player. Tem certeza que tamanha mixórdia não é mero descuido, afinal tudo está em perfeito estado de conservação, mas mantém tudo à mão numa esperança sub-racional de precisar de qualquer coisa a qualquer hora. Tudo tem que estar ali, pronto para a imprevisibilidade pressentida.

 

            Sua ausência de rotina é quase litúrgica. A qualquer hora pode sair... voltar, talvez volte ou apenas passe para trocar de roupa pela manhã. Não importando o que marque o relógio, ao chegar, deita-se no sofá por sagrados cinco minutos, pés para o alto... tateando, busca o controle que geralmente repousa sobre o encosto como fora deixado da última vez. POWER ON. Ali está aquele único CD que não precisa ser procurado – aumenta lentamente o volume antes que a música comece - lembra-se então de sua verdadeira procura, daquela cidade que está por vir e cujo encontro lhe trará reconforto. PLAY... Um violão suave num simples, confortável, tônico e reconstituinte dó maior. A voz ouvida diariamente traz o à realidade... “Eu não sou da sua rua, eu não falo a sua língua, minha vida é diferente da sua. Estou aqui de passagem. Esse mundo não é meu, esse mundo não é seu.”.

 

14Ago2006 - 11:58 | ( 11 )  Entre no Contexto 

 

Vilarejo
Marisa Monte


Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Porque apesar de estar fazendo frio nesse julho, o vento aqui é sempre bom. E, quando ele sopra, você se enche de vida.
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Porque apesar de quase não existirem mais varandas, descansar aqui é ver o horizonte deitar-se no chão, e se você olhar para o outro lado, ele se deita no mar.

Pra acalmar o coração
Porque apesar de nossa insegurança cotidiana, é quando você sai daqui que sobrevém a sensação de que o coração só se acalmará na volta.
Lá o mundo tem razão
Porque apesar de sermos essencialmente emocionais, não perdemos a razão por pouca coisa... talvez por carnavais e campeonatos de futebol, mas nunca por pouco.
Terra de heróis, lares de mãe
Porque apesar da realidade que embrutece, sorrimos e vivemos com um heroísmo latente, e nossos lares são nossos fortes de batalha.
Paraíso se mudou para lá
Porque apesar de um dia ele ter se localizado num tal Jardim do Éden, após a expulsão de nossos pais primitivos, para algum lugar o paraíso deveria ir... encontrou paragem certeira aqui.


Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Porque apesar de convivermos com o contínuo contraste e com a proximidade entre o luxo e as palafitas, em qualquer casa, os frutos da cidade são a sua essência instigante e única.
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Porque apesar da vergonha que sentimos diante dos fatos diários, nossos peitos estão fartos da alegria de aqui termos nascido, e os filhos dessa terra não fogem à luta pelo que é seu.

Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Porque apesar de sermos provincianos, temos o bairrismo mais cosmopolita do país e toda gente cabe aqui até não sei quando, e pelas ruas você nunca deixará de encontrar alguém que caiu aqui e se apaixonou.
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Porque apesar de andarmos voando pelas ruas do centro, sempre encontramos tempo para uma olhada mais atenta às nossas belezas, sejam elas naturais, construídas ou humanas... não sei qual delas mais intensa.


Lá o tempo espera
Porque apesar do mundo, temos um ritmo próprio... nem acelerado, nem muito lento... temos nosso tempo.
Lá é primavera
Porque até no calor infernal de janeiro, nas chuvas de fevereiro ou nesse frio incomum de hoje as flores se abrem e a cidade é sempre perfumada com o mais original aroma carioca.
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Porque apesar dos cadeados, do crime organizado e do medo, há sempre uma fresta esperando para ser invadida pela sorte, pedindo para que ela ali faça morada e seja a blindagem das portas e das janelas.


Em todas as mesas, pão
Porque apesar da falta de oportunidades igualitárias não nos faltam formas justas de conseguirmos nosso pão quotidiano com um bom-humor singular.
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
Porque apesar do vermelho-tijolo que toma conta de nossas encostas ainda temos um pedaço de floresta que se colore em qualquer dia do ano. Porque apesar de todos os dias termos uma reclamação, somos imensamente gratos pelo destino que aqui nos trouxe e mantém.
E essa canção
Porque apesar do cansaço e da contrariedade sempre temos uma canção para tudo, seja uma praia, uma rua, uma garota de um certo bairro, um dia bom ou o que nos der no coração.


Tem um verdadeiro amor
Para quando você for
Porque apesar do senso de auto-preservação, quem entra aqui não sai sem receber aquilo que temos de melhor...

Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Porque não há apesar em deixar o carro na garagem, optar por andar e sentir-se voando, entorpecido por uma atmosfera ímpar, digna de idealização.

 

6Jul2006 - 23:58 | ( 18 )  Entre no Contexto 

Que seja sem fim

Quem acreditou que os dias frios poderiam ser devidamente aquecidos sob o edredom teve a feliz experiência de sentir-se reconfortado pela presença inesperada de seu corpo ali.

Quem entendeu que os dias tristes só servem para enxergarmos com mais luz as manhãs de sol foi feliz ao encarar tanto os nublados quanto os ensolarados e deparar-se com sua presença incondicional.

Quem ainda cria que a falta de esperança era momentânea foi surpreendido com o seu incentivo doce e seu sorriso aberto e iluminado, e assim pôde ter fé em algo que nem sabia o que era.

Quem esperou acima do suportável por um sinal de salvação viu sua mão estendida e sentiu seu toque suave que dissipa a dúvida da validade da espera.

Quem achou que viver era jogar no escuro contra o pior adversário mas enfrentou o desafio sentiu então o torpor de ser seu aliado, e não temeu mais o resultado, mas viveu o jogo como um fim em si.

Quem quis perder o sentido das coisas mas teve medo da perda, mesmo que sob a covardia, viu seus olhos brilhantes que punham luz numa trilha à razão pura, prática e dialética.

Quem quis perder-se na preguiça e inércia, ao sentir seu cheiro ímpar misturado ao a terra molhada em dias de chuva, foi impelido por uma força maior e quebrou o concreto que cobria os pés e ganhou sede de mundo.

Quem achou que não sabia mais o caminho de volta após ter partido sem aviso prévio, mas arriscou num caminho sem marcas, sem trilhas de pão, sem bússola ou referencias físicas sentiu a pulsação de seu coração e foi guiado pelo insistente som dele vindo e, ao chegar, pôde enfim dar crédito ao que a todo momento pressentia, que você esteve lá a todo tempo esperando, desejando e com braços prontos para o abraço que tudo cala e precede o paraíso.

30Jun2006 - 01:02 | ( 11 )  Entre no Contexto 

Da fragildade e da redescoberta

 

Tava ali parado esperando nada da vida. Dias iguais, noites idem. Mas naquele momento muito menos. Coisa alguma no mundo poderia me despertar da inércia. Tolo. Era isso que eu pensava. Um descuido bobo e ela surgiu do inesperado, o que era casual, ou melhor, despretensioso, me tomou de repente. O que era aquilo, afinal? Era mesmo o que eu tanto esperava e não acreditava mais ser possível?

 

Obviamente minha estupidez habitual não me deixou perceber de cara. Só me dei conta quando uma noite algo me parecia faltar... horas e mais horas pensando... uma única imagem na cabeça. Tentei desviar o pensamento, mas não havia porquê. Talvez a razão era o fato de eu não acreditar nem um milímetro em novas paixões. Com outros, sim. Comigo?... nem que o céu se tornasse eterna e profundamente verde. Do desvio fui ao delírio... lembrei da cor dos seus cabelos, de jeito que eles voavam ao vento suave da orla, revi sua pele branca, levemente avermelhada no sol de setembro. Seu cheiro de repente invadiu o quarto e quase holograficamente a vi. Minhas pernas tremeram. Sua voz suave parecia vir de muito perto e já não pude deixar de notar o quanto meu coração estava acelerado. Segurei minhas mãos. Suavam frio como em febre alta.

 

Eu, tão seguro de mim, me vi novamente caído, cercado e sem saída. Tive medo. Por mais que eu dissesse que o passado era algo resolvido, não poderia esquecer que já sofri, e muito, por amores. Primeiro, os não correspondidos. Depois, os impossíveis. Por fim, os mal sucedidos. Mais medo. A cada lembrança de sua imagem, me via num paradoxo: me sentia seguro e ao mesmo tempo sem controle de mim. As ondas de seus cabelos imitando as do mar me deixavam sem reação. O balanço suave de seu corpo caminhando me fazia sorrir. Pensei em pedir socorro. Mas a quem?! E por que?! Medo, medo, medo. Era isso que fazia do céu uma prefiguração do purgatório. E se não fosse possível? E se ela não me notar como eu quero? E se eu não for aquilo que ela espera?

 

Levou tanto tempo pra eu me sentir humano que não podia acreditar. Aqueles sentimentos não faziam mais parte do meu pobre léxico, nem da minha medíocre existência fora do mundo real. Como foi bom me sentir vivo novamente. Pela paixão e pela limitação, era eu de novo... aquele que havia esquecido de si num súbito assustou-se com sua condição frágil e tangível. Cansei de resistir. O que virá? Importa menos o que, e mais a essência da descoberta, ou redescoberta, sendo claro. À dor ou à felicidade, é a isso que somos conduzidos. Me exponho pra me manter vivo, me mostro pra que não me esconda outra vez.

23Jun2006 - 18:59 | ( 25 )  Entre no Contexto 

Parafraseando Lennon - Starting Over

 

Parafraseando Lennon - Starting Over

 

 

13 de fevereiro de 2006. 3 horas e 29 minutos.

Rio de Janeiro chuvoso... oportunidade para um novo começo.

Em meio a tantos eventos e situações inusitadas... inspiração passou longe, perto mesmo só a vontade de escrever. Ainda bem que o mundo não é feito de vontades, o trabalho que dá tornar todas essas intenções realidade é um prazer em si.

 

 

Quanto ao novo começo, espero ser duradouro... sem pausas ou pseudotérminos...

Compassos encadeados, mesmo que dissonantes, de acordo com o que for preciso...

Suaves como valsas em 3/4...ou nos 6/8 que me aceleram a vida...

Às vezes redondinhos como binários... simples assim ou, se necessário, polirrítmicos como sou habitualmente.

Grave e intro como manhãs de inverno na Enseada, tipo “Dois barcos”,

Médio e faceiro como “Samba de Uma Nota Só”,

Em momentos adequados, agudo e incisivo como o finalzinho inigualável de “La Mamma Morta”- salve Callas.

Na rotina, seja suave como aquela trilha que escolhemos, e durante uma semana ou mais é só ela que rola no player (atualmente “It never entered my mind”).

Na loucura dos dias incertos, entorpecente como “Bohemian Rhapsody”.

Nos dias em que a cabeça não agüenta mais nada, espero a previsibilidade de “Marcha Soldado” – sol,sol, mi, dó, dó, mi, sol, sol, sol, mi, ré... êta, Villa que não me some da lembrança!

No estado perfeito, a sutileza das variações dos finais de cada verso de “Desafinado”,

Quando a tranqüilidade me fizer pedir mais... que seja ouvida na intensidade de “Enter Sandman”

E, num dia de céu de inigualável azul, perdoem-me a fraqueza, “More than words”.

 

 

The heat is on, leitor. Ainda influenciado pela noite de sábado na Fundição, deixo “saudações a quem tem coragem, aos que estão aqui pra qualquer viagem”.

 

13Fev2006 - 03:07 | ( 4 )  Entre no Contexto