PSEUDÔNIMOS NO ORKUT
Por Ramon Mello
Na história brasileira, há exemplos clássicos de pseudônimos: Julinho de Adelaide (Chico Buarque), Suzana Flag (Nelson Rodrigues), Helen Palmer (Clarice Lispector)... Mas faz tempo que os pseudônimos não são usados somente por escritores, poetas, jornalistas ou artistas que não queriam ou não podiam assinar suas próprias obras. O nome fictício usado por um indivíduo como alternativa ao seu nome legal é cada vez mais comum na Internet, principalmente quando estamos falando de Orkut.
Nem sempre o pseudônimo é uma mudança total do nome. Às vezes pode consistir na mudança de uma letra ou outra, porque o portador acha que seu nome de batismo é "difícil". Mas, na rede, a troca de nome pode ter finalidades diversas: desde a busca de privacidade procurada por alguns artistas ao desejo de um anônimo de assumir (ou construir) uma identidade que não lhe pertence.
Se passearmos rapidamente pelo calçadão virtual, perceberemos quais são os perfis fakes, aqueles em que um usuário assume uma determinada identidade somente para não ser reconhecido nas comunidades em que estiver visitando (normalmente, espaços que discutem temas sexuais) ou para fuxicar o Orkut alheio sem ser reconhecido.
Apesar de a busca pelo anonimato ser importante, há uma comunidade que se dedica a esse assunto: Pseudônimos e Heterônimos – “para quem tem, teve ou pretende ter um” - onde cerca de 60 membros confessam a utilização de outro perfil na rede.
CRIANDO UM ‘PERSONAGEM’
No meio virtual, é difícil ter certeza se estamos em contato com informações verdadeiras sobre uma determinada pessoa ou se estamos lidando com um pseudônimo. Se no perfil reconhecidamente original as pessoas normalmente mostram o que desejam ser e não o que verdadeiramente são, imaginem quando se está diante de um nome falso.
Tornou-se comum os usuários assumirem a identidade do artista preferido. Eles usam todas as informações necessárias para tentar convencer, por meio de fotos e informações pessoais colhidas na imprensa, que realmente são os famosos.
O ator Gabriel Wainer, por exemplo, desde ‘Malhação’, é “copiado” por várias pessoas. São mais de 60 perfis que juram ser o verdadeiro Gabriel. No entanto, ele usa um pseudônimo para se relacionar na rede.

“Desprezei o Orkut por quase três anos. Só fui entrar quando já estava há um ano na ‘Malhação’. Inventei um pseudônimo para conhecer o espaço e acabei ficando. Fiz isso por diversão, para criar um personagem. Mas acho muito louco quando vejo que dezenas de pessoas criam pseudônimos com o meu nome, assumindo minha identidade. Na verdade, eu não consigo entender muito bem isso” , diz Gabriel, sem revelar o pseudônimo.
TRANSPARÊNCIA OU BRINCADEIRA?
A jornalista e atriz Andrea Veiga, que no início de sua carreira trabalhou como paquita no ‘Xou da Xuxa’, não quis usar um pseudônimo quando decidiu entrar no Orkut, e só adiciona amigos.

“Nunca pensei em me esconder atrás de nenhum pseudônimo, seja para o que fosse. Mas procuro manter a minha privacidade, e só adiciono na minha página os meus amigos de longa data. Depois de muitos pedidos de aceitação e insistências, um fã criou uma comunidade para mim, onde sempre respondo as perguntas que me são feitas. Lá, todos, sem exceção, são bem-vindos”.
Já o escritor Fábio Fabrício Fabretti não perdeu a oportunidade de criar seus pseudônimos no Orkut, para dar mais vida a seus personagens. Convidado para escrever para o site Escritoras Suicidas, onde só participam mulheres ou homens com pseudônimos de mulheres, Fabretti inventou duas personagens: Maysa Trash e Santa Maria.
“Eu me espantei com a repercussão desses perfis. Maysa é uma adolescente fashion-gótica-rebelde e ninfomaníaca, que escreve sobre sexo e a vida. A outra, Santa Maria, é uma quarentona solitária, dona de uma agência funerária e que se inspira na morte para escrever. O interessante de usar uma máscara literária é que você justamente explora os vários ângulos da sua personalidade. É uma brincadeira tão séria que, quando uma das duas atrai alguém que começa a se envolver de fato, logo revelo a verdade”, confessa Fabretti.
Hoje em dia é bem mais fácil embarcar na criação de uma falsa identidade na Internet. Há diversas possibilidades de criar um perfil. Basta visitar algumas comunidades e ir construindo a identidade aos poucos, de acordo com o desejado.
Sob o aspecto jurídico, o pseudônimo é tutelado pela lei quando tenha adquirido a mesma importância no nome oficial, como é o caso de Pelé, Guga, Xuxa e outras personalidades. Mas isso é outra história...
Matéria publicada em 13 de maio de 2007.